23/07/2017

OS MEANDROS DA INTOLERÂNCIA

Anacleto Sacras tinha dirigido à edilidade um requerimento com o propósito de obter autorização para assar um porco no espeto na principal avenida, numa área pedonal que também destinam a espectáculos musicais e a exposições de escultores famosos que ninguém conhece. Tinha sido aquela a ideia que tinha conseguido encontrar para publicitar as histórias que inventava para se desenfadar da sua condição de funcionário cansado. As horas carreadas para o esforço em desenhar construções gramaticais para tornar credíveis as suas fantasias, incrementavam a sobrecarga a que o trabalho exigente na Repartição o submetia, tornando árida aquela terra onde poderiam crescer as maiores invenções e todos os devaneios. 

No limiar da subsistência como trovador, publica o magro resultado daquele jogo inglório em se esquecer das agruras da existência, num circulo virtual da sua confraria. Tem a candura de o fazer sem ser movido por interesse material, mas não ignora que procura algum reconhecimento para tão árdua tarefa, pese embora as limitações do tempo que dispõe na sua oficina mental para se demorar no devaneio causado pelas incongruências da realidade. As vicissitudes do existir. Não confia naquele contador de visitas que começa a contar quando pré-visualiza os textos antes mesmo de os publicar no seu perfil, sempre com os títulos mais apelativos que consegue engendrar, um truque que qualquer leitor de jornal bem conhece.

A sobrelotação de credulidade nascida como ervas daninhas na sua propensão humanitária distrai-o a ponto de se esquecer de que nem toda a gente é dada a pantominas. Alguns desses são aqueles que na Repartição exigem um ar sério e compenetrado, como se o uso da galhofa fosse um desrespeito legalmente punido com um olhar reprovador. É a ordem em que vivem no seu mundo arrumado em prateleiras com os rótulos em ordem, incapazes da poesia do inesperado, do gozo do imprevisto. Mesmo fartos dessas existências contidas, contentam-se em desancar em quem se manifesta de forma espontânea, com a capa de seriedade que só possui como substrato o vazio de qualquer vontade de mudança e o despeito por quem ousa colorir a sua vida com alguma fantasia. A respeitabilidade e a estreiteza de vistas conferem-lhe o poder de fazer sentir desconfortável a presença de quem se revolta sem violência contra as adversidades que a burocracia provoca aos expostos de longa duração como ele, que ainda não podia entrar na sala de espera da saída daquelas obrigações.

Fora um espécimen desses que tivera que aturar numa renhida, mas leal, troca de argumentos. Mas não conseguia conformar-se que aquele pedido de escusa tivesse cabimento naquele espaço, de natureza não institucional, de livre agremiação de pessoas com a mesma profissão, uma confraria de funcionários em modo informal, um espaço para a criatividade de cada um. Defendendo o direito do opinante a expressar a sua versão, nunca aquele apelo deve proceder e cada um deve seguir o seu caminho ignorando-se mutuamente. Tal escaramuça de argumentos fora retirada de circulação sem qualquer explicação aos visados, num acto de censura de alguém que se armou em cavaleiro andante sem se aperceber que caucionava a acção do «Troll». Embora constituísse uma afronta à liberdade de expressão, Anacleto pretendia apenas atenção para as suas fantasias, não popularidade para si, nem polémicas estéreis e cansativas. Para além de que os interesses gerais daquela agremiação estavam acima da sua humilde pessoa. Na resignação persistia um laivo de dúvida sobre a cobardia em que podia fundar-se o abster-se de voltar a publicar por ali. 

Sobretudo quando se processam na sombra de ministérios mais desconsiderações sobre a complexidade dos assuntos com que os funcionários são postos à prova numa luta diária contra o erro. Mas esse canal por onde escoava a sua produção literária em regime de voluntariado ficara-lhe vedado por causa da estreiteza de vistas de um frequentador. O contador de visitas do qual  desconfiava cada vez mais indicava-lhe como provável que a ligação para as suas intervenções na integra, que envolvem a abertura da sua página, registavam movimento inusitado. Não sabia se os visitantes não desistiam da condição de leitores e a abandonavam, mas se supostamente regressavam para novas visitas, isso fortalecia a legitima suposição de que por aquela via poderia angariar interessados nos seus esforços literários. Ainda aguardava a resposta formal do requerimento submetido, mas sabia que não ia receber nenhum parecer favorável, para bem da sua auto-estima em não poder concretizar tal evento, em cujo ridículo se inspirou para desvendar os meandros obscuros da intolerância.