21/07/2017

O HOMEM QUE QUERIA SER CONDENADO




A presente narrativa resulta da imaginação do autor, não sendo baseada em factos ou pessoas reais.







I - E ter uma cabeça grande [J.C.]



Jorge gostava de se sentar naquela mesa em particular, localizada junto ao amplo vidro que constituía a montra da pastelaria, quando ia tomar o pequeno-almoço. Se a mesa estava livre o dia apresentava-se radioso, mesmo que estivesse a chover, ou agoirento, mesmo que estivesse sol, se estivesse ocupada. Uma espécie de augúrio que ele levava demasiado a sério. A irritação de não se poder sentar nela, observando para além da transparência da montra o movimento das pessoas e dos automóveis, razão suficientemente forte para sentir prejudicado e um sinal inequívoco de que o dia ainda traria mais contrariedades e contratempos. 
Mesmo que os acontecimentos posteriores viessem a desmentir aquela crença, não conseguia livrar-se da convicção de que conspiravam contra ele, privando-o do único lugar onde o pão de água bem cozido com manteiga e o carioca de café lhe sabiam bem. As pessoas que ocupavam a mesa usurpadores sem vergonha de um direito que a si mesmo se concedera de tomar o pequeno-almoço ali, livre dos comentários sem interesse que a senhoria à hora das refeições insistia em relatar-lhe, apesar do seu evidente desinteresse. Normalmente sobre notícias que ouvia na televisão, que ligava logo que acordava. No dia anterior esquecera-se de lhe trazer o almoço porque estavam a transmitir o funeral, em directo, de um rapaz que se tinha suicidado, atirando-se dum viaduto por ordem de outro, num jogo muito em voga chamado “Baleia Azul”. 
Nos dias em que se tinha que apresentar na R.T.T. (Repartição dos Trabalhadores Temporários,) para onde tinha sido encaminhado depois de ter sido extinto o seu posto de trabalho e despedido, a Repartição fornecia-lhe uma senha de pequeno-almoço como aquelas que são facultadas aos dadores de sangue, por comparecer a horas e se colocar à disposição para realizar uma tarefa que lhe dessem: carregar os sacos de compras de alguém incapacitado, apanhar e separar lixo pela praias, fornecer refeições aos sem abrigo. De todos esses serviços que realizava sem pestanejar, sem angústia e sem entusiasmo, apreciava quando a tarefa era passear um cão pelos passadiços da praia. 
Deslocava-se de bicicleta para os locais onde era requerida a sua comparência. Fora-lhe fornecida pela Repartição, era lá que a deixava e ia buscar por não ter lugar para a guardar no minúsculo quarto que ocupava, cuja renda também era suportada pela RTT. Tinham colocado nas portagens máquinas que faziam o mesmo trabalho que ele, e não faziam reivindicações por melhorias de salário ou condições de trabalho, não se comoviam a ponto de perdoar a quem não tivesse dinheiro para pagar e não insistiam em ter férias quando o movimento era maior, no tempo da praia. O facto de ter sido substituído por uma máquina uma razão para se sentir uma vítima legítima do progresso e uma espécie que devia ser protegida, pois o seu caso era apenas um dos muitos que tinham ocorrido ao longo do tempo pela introdução das máquinas em funções que antes eram desempenhadas por humanos.
Enquanto esperava que o carioca ficasse morno e se inteirava do desinteresse geral dos demais, J. tentava encontrar uma resposta para isso. Invariavelmente não chegava a nenhuma conclusão. Desconfiava que isso tinha a ver personalidade apagada, com a modéstia e vulgaridade da roupa que envergava. As pessoas com quem convivia eram as que lhe apareciam nas suas tarefas temporárias. Não fosse a senhoria que lhe servia as refeições, teria dias em que não falava com ninguém. Passava os dias livres a vaguear, colhendo pedaço de madeira que encontrava, para alimentar a pequena salamandra que fornecia algum calor, logo desvanecido pelas frinchas de janelas e portas em mau estado. Era o seu seu ar sorumbático que dera azo a que lhe pusessem a alcunha de “Cabeçolas”. Isso, e ter uma cabeça grande.



II - A Carta Anónima



Àquela hora o creme da Nata já estava frio. O lugar a que Jorge se habituou a considerar seu está vago. É dali que olha para a rua, meio escondido por uma faixa quase transparente de publicidade à «Super Bock». Uma rapariga de lábios pintados de vermelho com uma camisola a dizer “eu amo Paris” passa, ao mesmo tempo que outra, com os braços peludos e com ar de quem faz uma pausa para o trabalho, entra na pastelaria. Hoje, contudo, ele tem a sua tranquilidade contaminada por aquilo que o Director da Repartição lhe disse, telegraficamente, naquele ar distante e pomposo, olhos de peixe por trás dos maciços óculos de acetato. 
“Sr. Jorge, é para o informar que faltam seis meses para terminar o seu estatuto de Trabalhador Temporário. A lei diz que deve ser formalmente advertido. Tem que assinar a folha que o funcionário lhe entregar, a confirmar que tomou conhecimento. Não o vou estar a maçar com outras considerações. Se vai ou não procurar um emprego, é consigo. Também não vejo muito onde possa procurar, com as suas qualificações. Certo é que daqui a seis meses acabam as senhas de refeição e o alojamento pago por esta Repartição e a partir daí este departamento deixará de ter a ficha activa. Bom dia. Passe na recepção para assinar a folha.”
Nada do que lhe fora dito era novidade. Estava consciente disso e todos os dias olhava para o calendário sem a mulher semidespida que lhe haviam oferecido numa oficina de automóveis, como consolo de uma tarde a carregar pneus para cima de um camião, de que faltava menos um dia para não ter quaisquer recursos para se alojar ou comer. Nunca ficaria na rua, pois existiam albergues e ele era suficientemente ordeiro para se adaptar às regras desses estabelecimentos. Estava inscrito na Oferta Nacional de Emprego. Nada mais podia fazer para encontrar uma ocupação remunerada, não era culpa dele ter sido substituído por uma máquina reluzente. Não iria morrer de fome, nem de frio, por isso encarava o futuro no horizonte de cada dia. Nunca tinha havido nenhuma queixa do seu desempenho nas variadas tarefas que tinham desempenhado, por isso tinha a consciência tranquila. Naquele momento o que podia fazer por si era saborear aquele pastel de nata que a empregada da pastelaria lhe oferecera. Já estava frio porque era do dia anterior, mas estava delicioso na mesma. Não tinha custado nada ter ajudado a trazer toda a loiça que estava em cima das mesas da esplanada, de uma horda de turistas franceses tinha que ali estado a tomar o pequeno-almoço. 
Apesar do seu estado de espírito não ser de angústia, também não se sentia completamente satisfeito com a sua existência, embora não soubesse com rigor invocar um argumento válido para a considerar miserável. Mais do isso ele sentia-se invisível. Um conjunto de átomos que não influenciavam qualquer rumo do planeta ou de qualquer pessoa. Dependia do Estado mas dele ninguém dependia, nem sequer um animal de companhia, como aquele gato preto e branco que costuma estar a apanhar sol à janela do prédio em frente, a observar tudo, a mexer as orelhas aos sons mais estridentes e repentinos, numa meditação de atenção plena perfeita. A sua pobreza e solidão não o tornavam interessante para ninguém, mas também o deixavam a coberto dos desígnios dos que se levantam animados pela ambição e que tinham urdido aquela teia que os escravizava através do trabalho, em ambientes tóxicos que conduzem às mais destruidoras doenças. Ele podia acompanhar o gato na sua vigília e aperceber-se do frenesim a que pessoas todas se tinham submetido a troco de bens materiais. Talvez desejasse um passe para ir ver o mar ou comer uma refeição numa daquelas esplanadas cheias de turistas, mas em contrapartida não tinha que viver daquela maneira frenética. 
A carta anónima fora uma ideia que lhe ocorrera quando a senhoria lhe servia uma aguada sopa de cebola e lhe relatou o mais recente escândalo de corrupção: um director de um ministério que tinha sido detido e estava a ser interrogado, durante o fim-de-semana, por um juiz já muito conhecido de outros casos, talvez por ser o único juiz daquele tribunal, pois estava sempre de serviço quando detinham pessoas importantes à sexta-feira. Uma carta anónima enviada às autoridades iniciara as investigações. Não resultavam destes processos mediáticos muitas condenações, pois os acusados podiam contratar bons advogados e usar todos os precedentes da lei para evitarem penas de prisão ou as adiarem. Ou a imprensa, sedenta por audiências, empolava o assunto de tal maneira, dando como certo que os visados tenham praticado os crimes, sem que os mesmos, tivessem sido julgados e condenados. Quase toda a gente acreditava que sim e que aqueles que eram acusados e condenados eram apenas uma pequena parte dos que delapidavam o património público em proveito próprio. 
Uma carta a denunciar-se de desvios que jamais conseguiria praticar, como aqueles de que falava a Senhoria, estavam fora do seu alcance. Denunciar-se como autor de crimes de sangue era igualmente pouco credível, pois ele até insectos tinha dificuldade em matar. Não conseguia ver na sua conduta qualquer possibilidade de se acusar de um crime que verdadeiramente tenha cometido, por forma a ser indiciado. Ainda lhe ocorreu a ideia de beber álcool, montar na bicicleta da Repartição e atropelar um polícia. A dificuldade desse plano residia na extrema dificuldade de encontrar um na rua que pudesse ser vítima de um atropelamento ou de uma tentativa. Os únicos que se podiam avistar estavam na entrada de supermercados. As ruas são incessantemente monitorizadas por câmara de vigilância colocadas em todas as esquinas, alegadamente para vigiar o trânsito, mas que podiam perfeitamente filmar outras ocorrências. O antigo patrulhamento a pé pela cidade, com o inevitável livro de contra-ordenações, tinha sido substituído por máquinas de filmar e por fiscais de parques, em uniformes azuis. Resistiam alguns arrumadores, curiosamente junto de cemitérios. A polícia era vista em viaturas, mas mostrava-se de metralhadora em locais públicos onde se espera grande afluência, como corridas de automóveis ou acrobacias de aviões.
Não tinha coragem para entrar num supermercado e atropelar um polícia ou alguém inocente, uma criança. Não podia prever como seria o seu equilíbrio em cima de uma bicicleta. Para além de tudo, custava-lhe perturbar o regular funcionamento de uma superfície comercial. 
Aquela ideia louca e repentina que lhe assomara e tomara a rédea do seu espírito prático, durante as garfadas do feijão-frade com atum, tinha evitado que continuasse a ouvir as mesmas ladainhas de sempre, acerca das notícias que se repetiam, os folhetins dos bancos a falirem e os folhetins de romance, ambos a ganharem reconhecimento internacional, dos quais ele não queria saber nada, pois nada podia fazer quanto a isso. Para pensar nesses assuntos há  gente muito bem remunerada, não tinha qualquer a obrigação de se preocupar. 
Nada de conclusivo saiu daquele pensamento impróprio que acometeu Jorge, que não era dado a fantasias nem a romances, a ponto de ficar incomodado com a ideia sem qualquer lógica de se fazer condenar. Se não conseguia encontrar emprego, como havia de se fazer condenar por um crime que era incapaz de cometer? Até ele sabia que se não existissem provas, não seria apenas a palavra dele a servir de prova. Teria que saber como tudo se passou, para não ser apanhado em contradições. Mas o que mais incomodava não era essa perspectiva, mas sim a ideia de querer que tal acontecesse. A tal ponto que nem saboreou a laranja já cortada em pedaços que a Senhoria lhe colocou para sobremesa. Tinha que ir descansar, não tinha sido convocado para nenhuma tarefa através de mensagem curta de texto para telefone móvel da Repartição. Estava sol, talvez o gato preto e branco o acompanhasse na sua reflexão sobre aquela alteração substancial do seu espírito despreocupado e o ajudasse a arrancar pela raiz ideias daninhas como aquelas, em vez de encarniçar o modesto intelecto com distracções de lunáticos. Uma boa sesta pode clarear muitas ideias dadas à luz de estômago vazio. Antes de adormecer pensou que teria que usar luvas para escrever a carta, para não deixar impressões digitais no papel, nem no envelope.

III - A Convocatória


Depois de matutar sobre a carta anónima e sem se demorar para já  com pormenores de natureza prática capazes de abortar prematuramente ideias geniais, como comprar um selo para a missiva não identificada que pretendia remeter, permanecia no ponto de partida. Não avançara nada de essencial na escolha de crime que o pudesse condenar a uma vida confortável nos calabouços. Se tivesse arte para se fazer condenar à pena máxima,  vinte e cinco anos, teria alimentação e alojamento garantidos por muito tempo. Poderia até ter um serviço leve de biblioteca, como já tinha visto um preso modelo num filme que vira nas sessões grátis da Praça, no último Verão. Empreendimento hercúleo que várias sessões de reflexão, com a cumplicidade circunspecta do gato preto e branco da janela vizinha, não tinham logrado resolver. Tinha concluído que a prisão era um local muito mais estável e seguro que o Albergue. 
Lá existem guardas armados e regras para cumprir. Talvez até tivesse canais que transmitissem desporto. O aparelho da Senhoria só sintonizava notícias e novelas. As notícias eram sempre desagradáveis e as telenovelas, um chorrilho de invenções para as quais não tinha paciência. Ao jantar a Senhoria quase que entornava a sopa na camisa nova, que lhe havia sido oferecida naquele mesmo dia na loja de roupa em segunda mão da esquina. Uma camisa um tanto garrida que suscitou um olhar de espanto. Como se já não bastassem ter ocorrido mais um atentado, um grupo de árabes que tinha saído à rua e desatado a esfaquear aleatoriamente quem lhe aparecia pela frente, sem nenhuma segregação de idade ou sexo das vítimas, o inquilino aparecia-lhe com uma camisola com uma cor tão viva que nem parecia ele.
Desde o onze de Setembro a actividade terrorista tinha sido gradualmente ocupada por indivíduos munidos de muita imaginação e espírito prático no cometimento de actos violentos usando tudo o que pudesse molestar a sociedade. A época em que se restringiam às bombas tinha acabado. A ampla cobertura dera ideias e motivação para agir a mais uns quantos desequilibrados, que assim ganhavam coragem para se aventurarem por conta própria, sem qualquer ideologia senão beneficiar de farta popularidade.
O que em várias tardes de sonolência controlada e afastamento de actividades úteis não tinham resolvido, resultou de uma sugestão proveniente das notícias que ele tanto detestava ouvir, recontadas pela Senhoria. A televisão não se encontrava ligada à hora das refeições por se encontrar na sala, que não era usada para esse efeito senão em ocasiões especiais que nunca ocorriam. Ele podia denunciar-se como sendo colaborador de uma dessas tenebrosas ajuntamentos secretos para a prática do terrorismo. Podia alertar para os preparativos de uma dessas acções sanguinárias que horrorizam a sociedade à hora da refeição, para além de poderem causar nódoas em camisas em segunda mão e vastas possibilidades de protagonismo aos autores e audiências à comunicação social. 
Apesar de ainda permanecer por solucionar o modo de obter os materiais imprescindíveis à prossecução daquele plano insano, apenas na aparência, como a esferográfica, papel de carta, envelope, luvas, a direcção completa para onde endereçar, tinha avançado substancialmente no seu plano, que sabia um ser um objectivo ambicioso, mas exequível. Seria mais fácil se não fosse um info-excluído,  mas fazê-lo daquela maneira um modo mais robusto e credível de se acusar. 
O seu plano era ficar de imediato em prisão preventiva, opondo-se a qualquer possibilidade da aplicação do  regime domiciliário, pois para além de não se tratar da sua casa e da mesma não ter telefone fixo, seria intolerável fechar fechado com a Senhoria vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Os dias seguintes adivinhavam-se de grandes afazeres e preparativos. Poderia usar as enormes luvas da Senhoria a pretexto de efectuar uma limpeza. O resto dos materiais e informações poderia obtêm-lhos na Repartição. O esforço final ficava reservado para a redacção da missiva propriamente dita, sem erros nem emendas. Tinha que ser legível para que a gravidade da denúncia fosse levada a sério.
No fim de tarde em que J. foi depositar a carta, nem a habitual insípida sopa de cebola lhe foi possível tomar. Aceitara o chá de cidreira que a Senhoria lhe ofereceu quando declinou a tigela, alegando estar maldisposto e recolheu-se para uma longa noite de insónia provocada pelo cansaço dos afazeres dos últimos dias e pela ansiedade provocada pela expectativa da sua detenção iminente, terreno fértil para o devaneio, replicada em cada uma das noites seguintes, que o transformaram num sonâmbulo durante os dias de espera.
Um dia ao entardecer finalmente dois polícias devidamente uniformizados, com pistola, radio de comunicações e algemas, estavam a falar com a Senhoria, à porta de casa. Susteve a respiração e esforçou-se por reduzir os batimentos do coração. Todavia os agentes de autoridade ausentaram-se sem o prenderem, sem sequer falarem com ele. Começou a colocar a possibilidade de estar a ser vítima de visões. Os dias naquela casa estavam a acabar e a Senhoria ao jantar nada referiu sobre a presença deles, o que ainda o deixou mais desconfiado da veracidade do que tinha avistado através da frincha da cortina às flores dos seus aposentos. A Senhoria jamais lhe ocultaria a visita das autoridades e muito menos o faria se a pessoa que procuravam fosse ele. 
Ela não gostava de polícias porque já tivera em tempo dissabores com eles e sofria ao recordar-se desses acontecimentos. Por isso omitiu a conversa informal com os dois agentes a J.. Afinal eles só lhe tinham perguntado se ele morava ali e dado um papel com uns letras de que ela não conseguia extrair qualquer significado. Compadecida do estado de saúde do visado, que se mostrava bastante combalido nos últimos dias, certamente pelo fim da tença que o Estado lhe dava, disse-lhe que ele não estava em casa por ter ido visitar familiares à província. Os agentes tinham-lhe deixado um papel, que deitou fora mais por instinto do que por premeditação, logo que entrou em casa. Aquela breve conversa com os agentes uniformizados à procura dum zé-ninguém como J., que já andava bastante apoquentado, deixara-a tonta e maldisposta, razão mais do suficiente para desencadear aquele lapso de memória de não entregar o papel que os agentes lhe haviam deixado para o seu inquilino.



IV - A Detenção



Aproximava-se o fim da vida subsidiada de J. quando de novo dois agentes vieram à bater à porta da Senhoria. Também estava a terminar a sesta a que se habituara a usufruir em vez de recolectar pedaços de madeira para se aquecer na salamandra, cujo calor era mais simbólico que efectivo, pois não ia precisar mais de recolher mobílias de aglomerado, de montagem rápida e curta duração. Raramente encontrava móveis de madeira maciça, cujos pedaços duravam e aqueciam mais do que aqueles pedaços cuja combustão se assemelhava à do papel.
Desta vez os agentes trajavam à civil e um deles era uma rapariga nova, de compleição para o enfezado. Só quando lhe viu a identificação é que acreditou que estava na presença de uma agente da polícia, cujas funções de investigação criminal permitiam que não usasse farda. Conforme explicaram prontamente à prestes a deixar de ser Senhoria, vinham buscar J. porque ele não comparecera nem na esquadra nem no Tribunal. Por isso tinha sido "ordenada a sua comparência sob custódia para ser presente a uma autoridade judiciária, a fim de ser inquirido" - palavreado técnico que a Senhoria não percebeu minimamente. Certo é que iria pernoitar na esquadra e de manhã iria ser conduzido ao Tribunal. 
J. desconfiava que este seria o desfecho provável da sua não comparência na data indicada que tinha sido depositada no Receptáculo, outro nome próprio para caixa do correio. A ideia de faltar fora instigada pela própria notificação, a qual expressamente advertia para essa possibilidade caso faltasse e até à data e hora da falta não comunicasse a sua impossibilidade. A J. ocorreu a impossibilidade de isso suceder se o convocado sofresse um qualquer acidente que o impossibilitasse de comunicar. Apesar da regra parecer estúpida era para cumprir, por isso ele não compareceria e aguentaria com as legais consequências. Além de que a sua culpabilidade aumentaria a partir do momento em que suspeitassem que se furtava ao contacto com as autoridades.

Ainda não passava da hora de jantar e por antevia uma refeição diferente, bem mais substancial e uma noite num dos locais mais seguros da cidade, a Esquadra de Polícia. Foi tratado com afabilidade, mas a noite mal dormida deveu-se mais a uma companheiro de cela com pesadelos, que havia sido detido por condução sob o efeito do álcool, mas que somara aos delitos algumas palavras e ameaças pouco simpáticas para aqueles agentes tão correctos e que ficara muito revoltado por ter que passar a noite sem beber, do que ao quase inexistente colchão. Para se entreter felizmente a cela possuía uma profusão de inscrições de anteriores locatários cuja eloquência deixou J. bastante elucidado acerca da amizade que tinham aos captores.
Estranhou não ter sido algemado, nem quando acompanhou os agentes à esquadra, nem quando foi transportado para o Tribunal. Lá, um rapaz novo, de barba, moreno e com uma camisa de surf, fez-lhe inúmeras perguntas sobre a sua vida. A sua atitude descontraída sugeria que não acreditava no carácter da denúncia que fora feita contra si, parecendo até que o divertia tudo aquilo. Ficou um pouco mais sério quando lhe falou que também tinha sido condenado a pagar uma multa por não ter comparecido. Parecia também saber do carácter incobrável daquela multa porque o visado não tinha quaisquer rendimentos, bens ou heranças que pudessem servir para garantir o seu pagamento. Era apenas burocracia e formalidade. 
Foi restituído à liberdade, não sem antes ser advertido com um ar mesmo sério por parte do funcionário, de que "se fosse preciso mais alguma coisa era notificado e se assim fosse que não faltasse." O local onde estivera a ser ouvido um sitio muito estranho, onde os funcionários se amontoavam, acotovelando-se uns aos outros e a pilhas de processos que há por todo o lado. Enquanto era inquirido a testemunha a quem faziam o mesmo ao lado ouvia tudo o que lhe era perguntado e notou-lhe um olhar de medo quando ouviu o Funcionário a ler-lhe o teor da carta anónima que o delatava de se preparar para o cometimento de crimes de terrorismo. Eram ambientes de trabalho muito tóxicas, em que as condições oferecidas aos Funcionários e depoentes eram pouco dignas. Sentia por eles toda a compaixão por assim terem de perseguir criminalmente os autores de todos os crimes que se cometiam.
Antes de abandonar a casa da Senhoria, J. ainda recebeu uma carta a notificá-lo do Arquivamento dos Autos, "por não se ter verificado qualquer indício da prática de qualquer crime" e por "ao sujeito denunciado nos presentes autos não poder ser imputada a prática dos factos de que vinha denunciado." Não tinham acreditado em nada, mas não levava a mal porque não havia efectivamente nada em que acreditar. J. sentia-se aliviado, mesmo sabendo que acabava ali o seu sonho prisional e que subiria um patamar da miséria ao recorrer ao Albergue. Ficou até surpreendido por ter acreditado que seria capaz de se fazer condenar. Mas era exactamente por isso que se sentia tão aliviado, como se nunca se sentira na sua vida.