25/07/2017

O DEUS DO TÉDIO

«... –, foi o próprio Deus que, no termo do seu trabalho, se deitou sob a forma de uma serpente debaixo da árvore do conhecimento: foi assim qe se recuperou de ser Deus... Fizera tudo demasiado belo... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus naquele sétimo dia...»*

Deus, confidenciando ao seu Anjo Construtor: – «Espera para veres as criaturas que vou inventar para a tua construção perfeita...!» – Antes ser de novo acometido por um bocejo que dura uma eternidade. A conceito do divertimento estava prestes a ser estreado com o a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. As caretas de crescente tensão do Anjo Construtor, que via o seu apaixonado e diligente esforço para proporcionar às Criaturas um paraíso ser impiedosamente destruído pela barbárie entre os homens e a restante Criação, carreava o seu ânimo celeste para uma insuportável perplexidade perante o comportamento da Divindade, que se distraia com tudo aquilo como se apreciasse a destruição e a morte. Como se o supremo divertimento pudesse consistir em assistir ao aniquilamento da única casa habitável que fora construída para as Criaturas, um condomínio de luxo do universo.


Deus só lhe tinha pedido para construir aquela e empenhara nela a maior parte da sua existência celestial. Talvez depois descansasse o suficiente para eventualmente lhe ordenar uma nova construção, mas desta vez opor-se-ia se não lhe garantissem outra raça mais inteligente para a desfrutar. Deus era capaz de fazer muito melhor do que aquilo no que tangia a Criaturas, mas enquanto durasse a farra do aniquilamento final que Lhe estava a proporcionar aquela divertimento inédito e rejuvenescedor, competia-lhe governar a sua angustia até que aquilo terminasse. Recorreria a uma qualquer emenda celestial para invocar o direito à greve se Deus insistisse naquele desporto destrutivo. Aquela Criação era o seu regalo, a ordem perfeita encarnada pela existência da Entidade Suprema da lógica e de todas as outras ciências que ainda não foram sequer inventadas. Apesar disso, tanta perfeição tinha acabado em tédio. 


Sendo Deus não poderia ser velho, dada a sua suposta intemporalidade, tinha-lhe explicado o Anjo Filósofo. Era mesmo assim e fora por ser assim que as criaturas de que se encarregara pessoalmente de criar procediam daquela maneira aufágica. O tédio causado por tanta perfeição uma equação imprevista. Ao ordenar a Criação já se poderia diagnosticar essa doença que corroía a Entidade Suprema, sem que qualquer um dos seus imensos poderes fosse eficaz para travar aquela misteriosa entropia. O responsável pela escatologia adiantara que os humanos nada poderiam fazer para impedir que essa doença que atingia o seu criador não lhes fosse transmitida, porque Ele a transmitira deliberadamente. O episódio da maçã um recurso de ultima hora para apressar a acção. 


Se os humanos não fossem recompensados pelo gene do tédio, poderiam bem usufruir na sua existência terrena com as maravilhas criadas pelo Anjo Construtor, numa felicidade apaziguada. Num cenário desses Deus receava que o tédio pudesse aniquilá-lo como Entidade, tornando-o mórbido ou depressivo. Nada poderia então fazer por si, nem por aquela multidão multifacetada de Anjos que o servia com total dedicação e para quem Ele significava a razão de viver. Não os poderia deixar no limbo da orfandade enquanto as criaturas que haviam criado com tanto empenho desfrutavam como Deuses de uma paz celestial, gozando as delícias de um paraíso de onde nunca haviam sido expulsos.



* Nietzsche, F. W. - Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Publicações Europa-América
Tradução da versão inglesa de Eduardo Saló (p.132)