19/07/2017

O SOL ARTIFICIAL



O candidato do Partido Branco havia prometido um sol artificial para os dias de "smog", para que os cidadãos não ficassem deprimidos com a ausência de luz natural. A manutenção do bronzeado, sem preocupações com os índices de ultravioleta, era um extra desse hipotético equipamento. Não era esta única proposta arrojada que tinha feito durante o período em que se podia prometer tudo para angariar o voto dos eleitores, pois havia igualmente prometido uma ilha deserta, nem que fosse um iceberg à deriva, em regime de «time sharing», para cada votante, devidamente apetrechada com toda a espécie de mordomias, à descrição do devaneio de cada um.


Apelava a que não votassem em ninguém, principalmente nele. Tal como os seus concorrentes, desdobrava-se em promessas impossíveis de cumprir. Isso não evitava que depositassem as suas esperanças numa cruz de boletim de voto em cada vez mais reduzido número. Uma franja do antigo eleitorado havia chegado à exaustão e à descrença total. Essa crescente minoria silenciosa fora vítima dos maiores logros, ao acreditarem nos candidatos que haviam sufragado. A decepção suficientemente atroz para se esvaírem para a praia da abstenção.

Proclamava que concorria pelo prazer de o fazer, para inovar o debate, político naquele período tão aborrecido, em que os candidatos se acarinham uns aos outros, mimoseando-se mutuamente com incriminações sobre defeitos insolúveis que nem os próprios sabem ser detentores, criticando-se entre si para se reduzirem àquilo que verdadeiramente são, transformando-se assim em iguais entre si. 


Ele sempre elogiou bastante os seus opositores, sobretudo aqueles que tentavam atribuir-lhe competências que nunca lhe ocorrera possuir. Pedia palmas nos seus comícios para eles, com os mais elogiosos termos, os maiores encómios, cobrindo-os do manto da perfeição, para confundir as massas que acorriam iludidas por aquela comédia “stand-up”, o Carnaval fora de época. As frequentes vezes em que era vaiado eram a garantia de que os que compareciam não estavam a dormir, nem que vinham pelos adereços de campanha, um deles, um boneco insuflável do “Zé Povinho”, muito disputado pela miudagem, para escorregarem às vez enquanto os pais participavam activamente na vida democrática. 


Ao incentivar ao voto em branco, pretendia que os que lhe achavam suficiente piada para não abandonar o local de esclarecimento,  pudessem tomar consciência da inutilidade de tal voto e dos votos nulos e da abstenção. Em termos práticos, este comportamento nunca invalidará a eleição daqueles que tenham recolhido a maior votação, mesmo que a quantidade de boletins nulos e brancos seja superior ao número de votos angariados pelos vencedores. Desta forma estava sempre assegurado que o mais votado fosse eleito e que este apuramento, na prática, resultasse em seu favor. Não tinha a pretensão de revolucionar as massas. Os mais sensíveis à sátira e aos seus propósitos talvez se sentissem tentados a assimilar a provocação e isso suscitar ondas de pensamentos muito profundas sobre o sistema politico, mas todo esse trabalho árduo era aquilo que eles pediam aos que pretendiam eleger, que pensassem por eles.