06/10/2017

O PÓ DOS CÃES A CORRER

Sebastião Pombo não tinha nenhuma espécie de ambição laboral, para além de executar com o maior rigor o serviço que lhe era destinado. Jamais trocaria a sua confortável posição de subordinado por uma de chefia, pois não suportava o encargo de «aturar gajos como ele». Não frequentava acções de formação, cuja utilidade residia mais no convívio entre formandos do que em qualquer aprendizagem vital. Não estava inscrito em nenhum fórum que discutisse questões laborais, nem em nenhum outro. Os comentários que ocasionalmente lia descarrilavam para a total imbecilidade e para o insulto, fornecendo uma radiografia da porcaria que conspurcava os cérebros dos participantes. Quando algum dos seus correlegionários se atrevia a evocar soluções para problemas profissionais abreviava o discurso alegando que «havia gente que era muito bem paga para pensar no assunto», desvalorizando as inúteis tentativas daqueles bem-intencionados de alterar a ordem em vigor. 

Fazia o que lhe mandavam fazer, não raro oferecendo-se para novas funções, aquelas que todos os outros evitavam, enfadado por conhecer os segredos do ofício, fosse para apreciar a liberdade de mandar em si mesmo ou para conhecer outra vertente de toda aquela burocracia. Nunca faltava a não ser por motivos justificados e inadiáveis, para não ver o salário ainda mais reduzido, razão que lhe servia de consolo para não fazer greves à sexta-feira nem pontes, aproveitadas para fins de semana prolongados para quem os podia usufruir. Era pontual na hora de entrada e de saída. Enquanto alugava, naquele horário, a sua alma ao serviço, pertencia-lhe, concedendo-lhe toda a sua atenção e energia. Os melhores dias aqueles em que se distraía a ponto de não dar pelas desenrolar das horas, para sentir o júbilo de despir aquela personagem, cuja representação o deixava sempre exausto, para usufruir da melhor maneira possível aquilo a que concedia um valor inestimável, o seu tempo, para ele sempre escasso, em que podia fazer o que habitualmente fazia, prover a sua subsistência, descansar, ouvir música ou regar as plantas aromáticas da varanda enquanto confraterniza «com os melhores vizinhos do mundo!», apreciando o silêncio granítico da sua perenidade. 

Ocasionalmente, devaneava sobre a longínqua reforma e nos momentos mais críticos chegava a fantasiar a hipótese da extinção do seu posto de trabalho, que talvez lhe permitisse sair antecipadamente daquele matadouro para que se tinha, na futilidade da juventude, voluntariado. Nessas altura sentia-se a vegetar das nove às cinco, devaneando com gratuitos banhos de sol enquanto observava os espécimes, quais formigas tresloucadas, afadigadas a cumprir rotinas como se fossem imprescindíveis à sua existência, enquanto ele sorvia o sol de inverno numa praça ou numa esplanada. A espécie dirigia-se para a sua extinção. Não podendo atrapalhar aquele ímpeto destruidor dos seus pares, confortava-o a ideia de que o universo atingiria o equilíbrio sem a sua presença, mantendo a secreta esperança que desaparecessem antes de conseguir destruir por completo o habitat dos outros animais cujo direito de usufruir deste planeta é igual. Provavelmente a única hipótese para os outros seres vivos, dos vegetais aos animais, de se salvarem desta espécie petulante e destruidora. 

Sentia-se grato pelo sol e até pelo ar causado pelas correrias de uma quinzena de cães das mais variadas raças e idades que ali confraternizam de diversas maneiras, sob o olhar atento dos acompanhantes humanos. Gratuitos ainda porque a corja que se banqueteava com os recursos naturais ainda não tinha logrado apossar-se deles, para os açambarcar. Ânsia destruidora que esventrava o solo para depois despejar todo o lixo desse vazio nunca preenchido pelo consumo, por todo o lado. Era sempre penoso atravessar aquela atmosfera irrespirável de gases de tubo de escape, de buzinadelas, do tráfego continuado daqueles veículos o que precisam de todas aquelas estradas, da macieza do alcatrão, quando a biomecânica humana se adapta a quase todos os terrenos. Ele não precisava de mais nada, mas sonhava com outras florestas, rios e montanhas, já sentado naquele afloramento de granito entre um sobreiro, um carvalho e um pinheiro bravo, respectivamente as árvores 235, 236 e 232 daquele parque, mesmo ao lado do pesadelo de uma avenida de saída do centro da cidade. Ao sair do banho de floresta e da concreta observação do comportamento alegre dos cães à solta, a hora de ponta desvanecia-se, o seu percurso guiado pelas ruas mais tranquilas, com o corpo refeito pela golfada de árvores e cães.

02/10/2017

E DEPOIS DO TURISMO?

     Sebastião Pombo defrontou-se com inesperadas dificuldades para encontrar uma casa para alugar, à medida do seu modesto vencimento, reduzido à medida que eclodiam desfalques em catadupa anual, nacionalizados para uma distribuição mais justa do prejuízo. No seu caso, a única via de contribuir para a grande fraude da dívida. A concorrência entre os estudantes e os turistas era feroz, mas os estrangeiros venciam, munidos de rendimentos civilizados a oferecer lucro a quadruplicar aos senhorios, com a bênção do estado que cobrava muito menos impostos sobre essas transacções, da mesma forma que os isentava de outros impostos se fossem reformados estrangeiros a passarem por cá uns tempos, enquanto os locais da mesma condição que se viam expulsos da sua casa onde tinham vivido toda a vida para que hotéis de turismo de baixo custo proliferem. 

     Para além das casas transformadas em miragens, os transportes públicos abarrotavam de visitantes e da turba, como ele, que não possuía automóvel e era transportada ilegalmente, sem que o concessionário afixasse o dístico - TRANSPORTE DE ANIMAIS VIVOS - obrigatório quando se transportam seres vivos daquela maneira. Ele detestaria a alternativa de conduzir um automóvel pelas saturadas ruas e confrontar-se com aqueles selvagens que não param nas passadeiras para peões ou buzinam por razões fúteis, na lógica irredutível que a pressa que os aflige os transforma em veículos prioritários.

     Considerara uma fortuna ter encontrado aquela casa com as traseiras para o cemitério: os defuntos jamais iriam reclamar dele algum comportamento mais ruidoso e nunca o iriam perturbar a pretexto do que fosse. Ademais, as vistas estavam garantidas por tempo indeterminado, pois ali não iriam construir nenhum hotel ou restaurante «gourmet», tão pouco seria possível licenciar ali alguma urbanização de condomínio fechado, dessas que precisam de porteiro. Para além do mais, podia gabar-se da inquestionável reputação de Camilo Castelo Branco e Ramalhão Ortigão como vizinhos. Chegou a sentir por breves momentos, que pertencia a uma classe abastada, naqueles jazigos de arquitectura Romântica e referenciados em guias da cidade. Por outro lado, a sua senhoria era daquelas que preferia a paz ao progresso, queria alguém que lhe pagasse a renda horas e não reclamasse da ventilação das janelas no inverno ou de qualquer outro defeito, em vez de transformar a casa num Alojamento Local e viver desassossegada pelas constantes mudanças de inquilinos de línguas incompreensíveis. 

       Ali já sobressaíam algumas fachadas restauradas com o fatídico AL e inúmeros turistas por ali passavam, mas por enquanto não abafavam os locais, nem a incómoda sensação que é confrontar-se com uma babel de turistas vindo dos mais remotos destinos, que se sente nas partes restauradas junto ao rio. Do outro lado da rua sobrevive um bairro de casas pequenas, de travessas que não têm saída e de um miradouro circular, o único a permitir na cidade uma vista a trezentos e sessenta graus, fechado e de misterioso acesso. O seu iminente restauro trará o fim da paz para os residentes, impedidos cada vez mais de apreciar a sua cidade, sem terem que se acotovelar com magotes de turistas em busca de recordações ou fotos. Sebastião esmifrava as sinapses na vã tentativa de compreender aquele conformismo e apatia, como se não estivesse a acontecer mesmo ali. Como se a propaganda oficial sobre a as maravilhas do turismo não fosse mais uma vez parar aos bolsos de alguns investidores, com todos as sofrerem os incómodos de tamanho progresso. Alguns começavam a lutar contra esta maré destrutiva naquela amálgama de indiferença pelo seu próprio bem-estar, mas não enchiam uma praça como no dia de vitória do clube de futebol ou dos concertos de ano novo.

27/09/2017

E DEPOIS DO EUCALIPTO?

     Onofre «Ocalipto» nunca conseguira compreender como é que as pessoas conseguiam viver amontoadas. Um enigma para o qual não havia encontrado a explicação: ー Quantos problemas não se evitariam se não se concentrassem assim? ー Aquilo que elegem como progresso era para ele a origem daquele martírio para que se tinham voluntariado. Por tédio ou por curiosidade. As aldeias e tudo o que se desenrolava por lá a maior afronta à ordem natural da vida. 

     Pela propriedade sem estremas deambulava uma matilha de cães de raças inexplicáveis, a quem a presença de seres humanos enervava tanto quanto ao usufrutuário. Treinados em afastar das culturas a gula destrutiva dos javalis, aplicavam igual ferocidade a qualquer estranho que se atrevesse a cirandar por ali. O macho-alfa era por esta altura um Serra da Estrela chamado Hideo e o único que podia alapar-se no alpendre e com quem Onofre se dava a longos monólogos quando precisava de ouvir a sua própria voz. Dificilmente algum ser humano se poderia aproximar dele sem ser detectado, em qualquer hora do dia ou da noite. Em troca podiam comer fruta da épocas e frutos secos, legumes e peixes do rio. Deles podia esperar fidelidade eterna, mesmo que lhe deixasse de fornecer peixe ou não houvesse nada que comer na horta e nas árvores de fruto. 

     A cabana que ocupava fora improvisada a partir dos destroços de uma casa de pedra, as paredes de troncos grosseiros estavam impregnadas na parte exterior de óleo queimado, que mantinha o apetite dos insectos afastado e garantia protecção contra os elementos, as portas não tinham qualquer fechadura. A casa de banho era por baixo para aproveitar o declive para fornecer água aquecida no fogão. Para além do catre, várias paus serviam para pendurar alguma roupa, uma panela em ferro redonda, apoiada em três pernas e rudimentares utensílios de cozinha e algumas provisões numa prateleira, compunham os bens materiais daquela existência. Era tudo quanto bastava para se sustentar materialmente. Se o homem fosse capaz de processar em si a fotossíntese a vida seria muito mais prazenteira, o homem um ser bem mais belo sem a escravidão de prover as suas tripas com toda a espécie de entulho, numa dependência de incalculáveis custos e fonte de toda a exploração terrena. 

    Onofre «Ocalipto» tinha sido um visionário quando começou a plantar clandestinamente eucaliptos. Agora, via subitamente a fonte do seu principal sustento ser diabolizada e isso tinha-o levado desde logo a antever a sua ruína futura e a procurar precaver-se contra as tormentas que se avizinhavam para os rendimentos provenientes da venda de tal árvore. O seu pioneirismo tinha-lhe valido ser imitado até à exaustão. Havia que encontrar uma alternativa. Os próximos cortes da sua propriedade estavam a salvo, pois no ano seguinte não previa ainda que os recentes e trágicos acontecimentos tivessem influência no que iria amealhar. Depois precisava de arrancar tais árvores e plantar outras no lugar delas. Todas aquelas que deviam constituir a floresta portuguesa demoravam demasiado tempo a dar algum retorno. Não tinha a quem deixar esta herança em crescimento e não ia plantar árvores para depois ficarem abandonadas à letargia do estado. Toda a dedicação que prestava à reflexão era recompensada por soluções, engendradas em longas horas no seu alpendre, virado para o rio, no sossego nocturno entre-cortado pelo ocasional piar dos mochos, pelo serrar dos grilos nas noites quentes, pelo rumor da água que corria mesmo por baixo da cadeira de lona em que se sentava, e por eucaliptos que abanavam e se torciam ao sabor dos ventos.

     O terreno onde construíra aquela cabana, em declive, dividido por um ribeiro que o atravessava para se imiscuir no rio mais abaixo, não lhe pertencia, mas também não pertencia a ninguém, era um terreno omisso nos registos oficiais, uma espécie de ângulo cego de retrovisor nos registos prediais. Isso aliviava-o do pagamento de contribuições. Tinha-o arroteado em socalcos, plantado eucaliptos e algumas árvores de fruto, ali cultivava de tudo o que era cultivável na época. Não precisava de rede de esgotos pois tinha feito uma fossa sanitária e a água era potável. Viveu sem luz eléctrica até ter montado com a ajuda de um amigo, uma sistema de painéis solares, mesmo no cimo da propriedade, onde tinham maior exposição solar. Da venda dos eucaliptos dependia não ter que mourejar às ordens de outros e dos seus caprichos mundanos.

     Uma das soluções havia-a encontrada desde que lera que no Alentejo, nuns terrenos irrigados pela barragem do Alqueva, se estavam a plantar umas árvores, guardadas por cercas eléctricas e vigiadas por elementos de segurança, cuja autorização dependia do Estado e cujos proprietários eram laboratórios de remédios. Essa árvore seria tão valiosa para assim estar guardada e depender de autorização do Estado? Como é que ele ia pedir autorização ao governo? E pior ainda, como é que podia garantir as mesmas condições de segurança? A vigilância da cultura daria cabo da maior riqueza daquele lugar, que era a ausência permanente de outros seres humanos, com as suas complicações e desavenças, isto sem contar com hipótese absurda e absolutamente incomportável de vedar o terreno, cujos limites definidos desconhecia, até porque ao longo do tempo se foram alargando as extremas, isso prejudicaria a possibilidade de continuar a agregar terreno dessa forma pacífica, sem oposição de ninguém. Mais tarde lera no jornal atrasado de uma tasca que o Estado tinha concedido uma nova licença para a planta, desta vez em Cantanhede. De novo uma empresa estrangeira de pesquisa. Para além das propriedades que apresentava para a pesquisa de medicamentos, podia ser usada para pasta de papel, para fibras cuja roupa apresentava uma durabilidade superior. O seu impacto sobre o meio ambiente era muito menos intrusivo, visto precisarem de muitos menos rega.

     Porque é que umas empresas estrangeiras haviam de ter licença para cultivarem uma espécie tão valiosa e um cidadão não podia aproveitar para sobreviver de uma planta que podia ser a eleita para substituir os mal afamados eucaliptos? Que leis eram aquelas que davam o monopólio da riqueza a estrangeiros? Negando a possibilidade de umas migalhas serem apanhadas por gente necessitada de sobreviver, como ele. Ele possuía em si uma tendência inata para viver fora do sistema, convencido de que o Estado apanhava e sugava até ao tutano aquilo que resultava do suor de um homem, para o distribuir de forma pouco justa pelos amigos. Naquele lugar isolado, a uma hora de caminho da aldeia mais próxima, do alto do miradouro da varanda, contavam-se pelos dedos de uma mão as presenças humanas, que se tinham demorado o tempo de enfastiar com tanto isolamento. Nunca tinha avistado um guarda-florestal ou vigilante da natureza, pois era um cargo que já só existia no papel. De doze em doze anos, era ele mesmo que fazia o corte e empilhava em toros já descascados de madeira. Uma máquina conduzida por um homem levava-a dali. Nada o impedia de clandestinamente começar a cultivar a tal planta, mas as suas intenções esbarravam na dificuldade de obtenção das sementes e depois no escoamento da produção. Para ele era imprescindível que garantisse um proveito semelhante ao dos eucaliptos.

     Também estava em plena consciência do seu valor no circuito alternativo do negócio, mas esse potencial desde logo ensombrado pelo risco que envolvia, visto ser perseguida ferozmente pelas autoridades policiais e criminais. Atrair a atenção de gente dessa envergadura estava absolutamente fora de questão. Gostava de dormir em paz no seu catre revestido de palha, os seus sonhos eram doces e suaves como a levada mansa do ribeiro que corria por baixo do seu abrigo. Não queria acordar de noite sobressaltado por policias e ser arrastado violentamente para o meio de pessoas e do seu mundo caótico. Se não queria ali ninguém, muito menos lhe interessava negociar e conviver com aquela gente que fuma as flores da planta misturadas no tabaco. O tabaco fora outras das ideias que lhe ocorrera e que esbarrara na necessidade de licenças. Para as obter era forçoso e invocar a posse (sabia que parte do terreno ocupado podia vir para a sua posse por usucapião), mas qualquer cobiça nesse sentido encalhava na inevitabilidade de ser detectado no radar das contribuições, das quais desejava continuar plenamente isento. 

     O plantio de eucaliptos tinha sido uma pérola retirada da ostra da sua cabeça, capaz de antecipar negócios lucrativos, mas a ambições dos que imitaram tinha ter tornado aquela árvore o bode expiatório para a falta de respeito pela natureza. Por outro lado, o Estado impedia que a população pudesse usufruir do cultivo de determinadas plantas, mas concede licenças para companhias estrangeiras esgravatarem o solo em busca de minério para alimentar a desenfreada produção de objectos fúteis, ou perfurando o mar em frente a praias paradisíaca, concedia licenças para a construção de barragens que destruíam o habitat dos rios e negligenciava a perseguição dos malfeitores que fazem descargas poluentes nos cursos de água, com a mesma descontracção com que deitam beatas para o chão. Não era ainda uma ideia morta no espírito pouco dado a fantasias de Onofre «Ocalipto», mas a precisar de ser burilada nas noites de alpendre, mas tempo era o que ainda não lhe faltavam até que se acabasse o pecúlio do próximo corte.

23/09/2017

SINAIS DE LANTERNA

     Treinou-se durante meses no código Morse através de sinais de luzes, até dominar aquela nova dactilografia com um só dedo. O polegar premia o botão da lanterna com a métrica do código sem que tivesse que pensar, a memória digitativa a antecipar-se a qualquer veleidade de improvisação. Noite fora, em frente ao espelho, enquanto uma específica janela emitia luz e a expectativa de vida. De vez em quando lembrava-se dos versos dos Mão Morta «Depois apagava-se/A última luz da última janela e desaparecia/O Amor na tépidez dos lençóis» e prosseguia a sua aprendizagem.


     Ele era um ser da noite, do escuro, de canções negras, do lado da solidão da espécie. Aquela clarão de vida quando todos os outros dormem o sinal que de que do outro lado do quarteirão vivia um ser como ele, um apreciador de todos os jogos de sombra que se desenvolvem na penumbra, em que as fantasias se tornam reais e aquilo a que chamam realidade se esvai com o ocaso da luz natural. Podia ser um ou uma infeliz que sofresse de insónias crónicas ou alguém com medo da escuridão, uma alguém supersticioso. Enquanto não tentasse estabelecer comunicação nunca saberia o motivo daquela luz se encontrar acesa toda a noite. Jamais seria capaz de bater à porta do apartamento e perguntar directamente. 

     Mesmo que toda aquela fantasia não resultasse em nada estava a adquirir uma nova competência cujo processo de aprendizagem lhe exercitava o cérebro. Podia ter começado por aprender a codificar um simples «boa noite» e por uma dessas coincidências que só são possíveis de antever na imaginação de um solitário noctívago, obtivesse uma resposta, então treinaria o resto do alfabeto. Por teimosia ou por hesitação em colocar à prova a sua imaginação demorou-se em dominar a lanterna e o código, adiando o dia em que se colocaria na janela da cozinha a fazer os sinais de lanterna. 

     Como vivia de noite, aquilo que de dia seria considerada uma ideia rebuscada, assumia contornos de plausibilidade que nunca era colocada em causa. Na impossibilidade de se mudar para uma região calma e tranquila, trocara o ritmo de vida e estava acordado quando quase todos os outros dormiam e a dormir durante o dia, sem dar conta da carnificina diurna. Era para ele uma ideia lógica que alguém fosse aprender Morse para lhe responder, mas o impossível não existe no campo das probabilidades e a mais pequena expectativa de encontrar uma alma gémea e com ela comunicar desta forma, motivo suficiente para lhe dar curso. 

(...a narrativa passa por o outro lado... se o(a) noctívago der conta do sinais de lanterna)

19/09/2017

O PASSAGEIRO FORA DO HORÁRIO


— O Sr. vem do trabalho?
— Sim.
— Lamento informá-lo, mas não pode viajar neste horário.
— Como assim? O que é que tem o horário?
— Neste horário, da uma à seis e meia da manhã, só podem viajar passageiros noctívagos que se andam a divertir. O Sr. não pode vir para aqui, com esse ar fatigado, incomodar os passageiros que andam a descontrair-se. Terá que sair no próxima paragem e esperar pelo primeiro transporte diurno, em que pode confortavelmente viajar, pois como trabalhador tem preferência nos lugares sentados.
— Mas eu trabalho de noite por turnos, acabei de sair da fábrica.
— Pois, mas o horário nocturno só é permitido para passageiros não trabalhadores. É por isso que nos horários diurnos a prioridade é absoluta para a classe trabalhadora. Exceptuam-se os casos de gravidez, de deficiência motora e de acompanhantes de crianças de colo, que continuam a ter a máxima prioridade, se se deslocarem para actividades consideradas de utilidade, senão, também têm que utilizar o horário da noite. Só não vou participar este ilícito porque não vai aqui mais nenhum passageiro. O Sr. arriscou-se muito, porque alguém vindo de uma noitada podia perfeitamente verificar o seu ar de regresso do trabalho e apresentar queixa. Aí estaríamos ambos metidos numa alhada, por Violação do Regulamento do Transporte Público. Eu perdia o emprego e o Sr. ficaria inibido durante um ano, pelo menos, da utilização deste serviço. Também se deve ao facto do Sr. não ser um desses casos em que é notório que vem do trabalho. Isso, só um funcionário como eu com muitos anos pode determinar com toda a segurança. Se fosse evidente teria que elaborar o modelo 423.
— O modelo quê?
— Quatrocentos e Vinte e Três, que se destina àqueles que vêm do trabalho com uma aparência de quem vêm da noite, prejudicando estes últimos…
— Mas aqui não vai mais ninguém!
— Agora, nada me garante que na próxima paragem não aparece alguém embriagado e conflituoso que dá conta. Este trabalho é muito cobiçado, não sabe o número de queixas anónimas que os serviços recebem a denunciar situações de desconformidade, tudo para atingir os Revisores, na expectativa de que possam abrir vagas para esta função. Por isso não nos podemos dar ao luxo de ser tolerantes, em termos práticos a sua situação é a mesma dos que não são portadores de títulos de transporte válido.

18/09/2017

O ESPANTALHO




Como é que conseguem ver os morangos de noite? — perguntava o primo do António « Alfaiate», rapaz da cidade a passar umas férias na aldeia de Serapicos.

De noite, os morangos ou qualquer outra fruta são todos bons! — responde-lhe o Carlos «Madrasta», que se preparava para liderar uma surtida aos morangal do «Malhão» da Fábrica, com a autoridade que lhe conferia fazê-lo desde que o Joaquim «Roscas» se tinha deixado disso por via de uma paixão que ainda durava por uma pequena da Póvoa dos Mosquitos, mais por teimosia por ela nada querer com ele, do que pelo resto. Aquele rapazinho da cidade ignorava que a principal motivação destas incursões se devia mais ao tédio de uma aldeia com um café e uma máquina de jogos que tivera sempre o mesmo jogo, morta para a sua função desde que toda a gente que poderia encontrar alívio nela se fartara e passara a constituir mais um motivo de tédio. A energia da juventude não se esgotava nos bailes enfadonhos na Associação Recreativa e Cultural de Serapicos, com os pais todos a assistirem, música popularucha, cerveja quase sempre quente e vinho corrente a copo.


A necessidade da juventude se divertir era compreendida pelos mais velhos e não se importavam muito com os assaltos, desde que não estragassem as outras culturas e não se alargassem no consumo. Normalmente eram árvores com muitos frutos as escolhidas e embora esse trabalho de identificação dos alvos fosse feito por todos era sempre Carlos «Madrasta» que fazia uma visita e decidia se era uma árvore escolhida. Embora existisse esse acordo tácito nunca admitido por nenhuma das partes, convinha analisar as circunstâncias humanas das redondezas, planos de fuga para o caso de algum proprietário mal disposto. Nesse aspecto o morangal era perfeito, pois desde que não fizessem barulho não eram detectados da mansão do falecido industrial, o único, de resto, que os correria a chumbo se fosse vivo, como tinha acontecido em tempos mais gloriosos desta tradição. O primo do «Alfaiate» fora bem advertido para a sua conduta, pois a história combinada era a de que o velho industrial ainda era vivo e capaz das maiores atrocidades a quem lhe invadisse o morangal.


Tal como esperado, enquanto meia dúzia de adolescentes se espalhava no terreno e colhia frutos maduros, facilmente discerníveis pela luminosidade proporcionada pelo luar, com o rapaz da cidade em frente. Terminava num cordão de videiras, com duas fiadas de arame e nele figuravam dois espantalhos a meio, para assustar os pássaros sem muita convicção, pois estes davam-se ao desplantes de os usar para se alaparem a escolher a altura de se banquetearem com os morangos mais maduros. O rapaz da cidade, entusiasmado por tão farta oferta de suculentos e doces frutos, como nunca havia provado na vida, afadigava-se a colher quantos podia para uma sacola enquanto mantinha a boca ocupada a mastigar ininterruptamente aquela iguaria. Num desses movimentos de colocar os frutos na sacola a tiracolo deu de caras com o espantalho. Sugestionado pela história que lhe havia sido contada sobre o feroz proprietário que para ele ainda era vivo, largou a correr pelo morangal só terminando aquela corrida quando o arame esticado do cordão de videiras o devolveu à realidade da física, com o pescoço marcado. A reacção inopinada rapaz da cidade e o modo como fora sustido motivo para abandonarem o local desabridamente, cada um para seu lado, tomados dum pânico inexplicável e contagioso. Nesta altura o rapaz da cidade ficou tão só quanto todos os outros e o seu comportamento foi espontâneo, subliminar, tendo fugido como todos os outros. A circunstância de não existirem por ali poços sem guarnição uma feliz coincidência.


O ponto de reencontro destas incursões era em frente ao café, por esta altura já fechado, num fontanário público a que chamavam a Bomba, com todo o propósito, pois era necessário bombear a água do poço rodando o manípulo que fazia girar uma roda de ferro e um embolo que extraia a água. A risota era farta à custa do rapaz da cidade por lhes afiançar que era o velho industrial em pessoa que estava mais à frente. e por isso tinha fugido daquela maneira desabrida. Desfeito o equívoco entre a aparição e o espantalho, embora embaraçado por isso, o rapaz da cidade sentia que embora se rissem dele também lhe estavam a agradecer a noite que lhes proporcionara, muito mais divertida do que se tivessem ido apenas debicar uns morangos ao luar. Ademais, era mais uma história que passaria a figurar entre as histórias que se transmitiam de geração para geração. Pelo menos enquanto durasse o efeito pasmaceira que motivava a perpetuar aquela tradição de comer da melhor fruta das redondezas, pois tinha sempre o sabor do risco.

25/07/2017

UMAS FÉRIAS DE SONHO

– Tive umas férias de sonho.
– A sério?
– Nem queiras saber, fui para uma estância paradisíaca. Aquilo é de cortar a respiração.
– Ai é? Mas quando é que foi isso?
– Em Agosto, não posso gozar noutra altura, por causa do maldito regulamento.
– Eu vi-te aqui a trabalhar em Agosto durante todo o mês. Foste ao fim de semana?
– Claro que não, um fim de semana não dá nem para a gente se instalar, quanto mais gozar férias. Estive aqui porque tinha serviço atrasado e não me apetecia fazê-lo, por isso contrariei-me e está pronto quando vim do gozo das merecidas férias.
– Então como é que te divertiste tanto, se não saíste daqui? Isso é alguma novidade de realidade virtual?
– Nada disso, onde é vais buscar essa fantasia toda? Roguei o Anacleto Sacras para as gozar por mim enquanto fiquei aqui a pôr tudo em ordem. É um «bon vivant» e sei que nunca me meteria em apuros. Posso até afirmar que ele gozou à grande por mim e por ele. Sabes como ele é, alguém que se diverte com qualquer coisa, até com aquele pacote turístico horroroso que tinha comprado em promoção. Ele é um sacana que tira proveito de todas as situações. Não exigiu mais nada do que o contratualizado com a agência.
– Mas, se não estavas lá como é que podes ter-te divertido?
– Sujeitou-se por mim ao longo e fatigante voo de ida e regresso e tirou aquelas fotos todas que publicou no meu Fakebook. Toda a gente assumiu que eu estivesse lá, mas não estava. Estava no meu sossego, sem alterar a minha dieta nem me confrontar com as excentricidades de países estranhos, enquanto alguns me davam os parabéns cheios de despeito por todo aquele gozo que ostentava nas fotos de praias e montanhas, pores de sol e outros artifícios usados para cativar turistas incautos. Não me podia ter divertido mais ao evitar todos os transtornos e incómodos de viajar. Para os outros eu estive lá, não estando. Quem lá esteve por mim divertiu-se mais do que eu me divertiria, dando a entender que fui eu que me diverti.
– Fantástico! Como é conseguis-te que ele te fizesse isso?
– Pedi-lhe. É isso que faz, goza as férias, faltas e licenças às pessoas. Ainda não tem licença para poder gozar a reforma, por causa da papelada toda que é precisa e da lentidão dos serviços. Porquê? Precisas de alguma coisa dele? Eu tenho o contacto dele.
– Tinha a esperança que ele me pudesse cumprir dois meses de prisão efectiva que apanhei, é a terceira vez que sou apanhado sem carta e agora como não tenho dinheiro para a multa, tenho que ir dentro, aos fins de semana, que é a altura de que mais gosto e em que posso descansar. Ainda pedi ao advogado para fazer um requerimento ao juiz para cumprir a pena durante a semana, em horário laboral.
– E o Juiz?
– Não aceitou, considerando que aquele regime não era o mais adequado para o caso. Eu já faço isso voluntariamente todos os dias, por isso não sentiria a punição, que era isso que poderia querer evitar. Se, ao menos se pudesse pescar na prisão, nem que fosse aos fins de semana, não me importava de ir, sempre seria um entretém, mas sem as canas fica difícil, senão impossível, suportar um fim de semana encarcerdo. Talvez o teu amigo me pudesse ajudar?
– Indo à pesca?
– Não!!! Eu referia-me à possibilidade dele me substituir na cadeia. Mesmo sendo tão dotado, dificilmente conseguiria pescar tão bem quanto eu e portanto daí não me adviria vantagem nenhuma. Se bem percebo, esse tal de Anacleto é capaz de encontrar divertimento nas situações mais exasperantes, talvez pudesse encontrar graça numa estadia gratuita no cárcere. Recompensa-lo-ia com a felicidade de continuar a ir à pesca.
– Concordo que é uma proposta arrojada e decerto Anacleto não desdenhará de analisar em toda a extensão e com a adequada atenção o desafio que comporta a tua proposta. Não é que duvide da sua extrema adaptabilidade para as situações mais extremas. É que há aspectos práticos a resolver para ser possível comprometer-se a cumprir o acordo. Seria preciso ludibriar as autoridades prisionais, alargando o horizonte da legalidade. Não da realidade, pois não seria uma incógnita troca de reclusos que prejudicaria alguém, mas as autoridades são inflexíveis em algumas questões legais. embora pudesse lucrar com doses de descontracção que Anacleto lhe proporcionaria  com a sua inestimável presença . De qualquer maneira o que há a fazer é ir falar com ele. Quanto é que tens que te apresentar?
– No próximo fim de semana, logo quando vai dar na televisão o Campeonato Mundial de Pesca à Pluma.

O DEUS DO TÉDIO

«... –, foi o próprio Deus que, no termo do seu trabalho, se deitou sob a forma de uma serpente debaixo da árvore do conhecimento: foi assim qe se recuperou de ser Deus... Fizera tudo demasiado belo... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus naquele sétimo dia...»*

Deus, confidenciando ao seu Anjo Construtor: – «Espera para veres as criaturas que vou inventar para a tua construção perfeita...!» – Antes ser de novo acometido por um bocejo que dura uma eternidade. A conceito do divertimento estava prestes a ser estreado com o a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. As caretas de crescente tensão do Anjo Construtor, que via o seu apaixonado e diligente esforço para proporcionar às Criaturas um paraíso ser impiedosamente destruído pela barbárie entre os homens e a restante Criação, carreava o seu ânimo celeste para uma insuportável perplexidade perante o comportamento da Divindade, que se distraia com tudo aquilo como se apreciasse a destruição e a morte. Como se o supremo divertimento pudesse consistir em assistir ao aniquilamento da única casa habitável que fora construída para as Criaturas, um condomínio de luxo do universo.


Deus só lhe tinha pedido para construir aquela e empenhara nela a maior parte da sua existência celestial. Talvez depois descansasse o suficiente para eventualmente lhe ordenar uma nova construção, mas desta vez opor-se-ia se não lhe garantissem outra raça mais inteligente para a desfrutar. Deus era capaz de fazer muito melhor do que aquilo no que tangia a Criaturas, mas enquanto durasse a farra do aniquilamento final que Lhe estava a proporcionar aquela divertimento inédito e rejuvenescedor, competia-lhe governar a sua angustia até que aquilo terminasse. Recorreria a uma qualquer emenda celestial para invocar o direito à greve se Deus insistisse naquele desporto destrutivo. Aquela Criação era o seu regalo, a ordem perfeita encarnada pela existência da Entidade Suprema da lógica e de todas as outras ciências que ainda não foram sequer inventadas. Apesar disso, tanta perfeição tinha acabado em tédio. 


Sendo Deus não poderia ser velho, dada a sua suposta intemporalidade, tinha-lhe explicado o Anjo Filósofo. Era mesmo assim e fora por ser assim que as criaturas de que se encarregara pessoalmente de criar procediam daquela maneira aufágica. O tédio causado por tanta perfeição uma equação imprevista. Ao ordenar a Criação já se poderia diagnosticar essa doença que corroía a Entidade Suprema, sem que qualquer um dos seus imensos poderes fosse eficaz para travar aquela misteriosa entropia. O responsável pela escatologia adiantara que os humanos nada poderiam fazer para impedir que essa doença que atingia o seu criador não lhes fosse transmitida, porque Ele a transmitira deliberadamente. O episódio da maçã um recurso de ultima hora para apressar a acção. 


Se os humanos não fossem recompensados pelo gene do tédio, poderiam bem usufruir na sua existência terrena com as maravilhas criadas pelo Anjo Construtor, numa felicidade apaziguada. Num cenário desses Deus receava que o tédio pudesse aniquilá-lo como Entidade, tornando-o mórbido ou depressivo. Nada poderia então fazer por si, nem por aquela multidão multifacetada de Anjos que o servia com total dedicação e para quem Ele significava a razão de viver. Não os poderia deixar no limbo da orfandade enquanto as criaturas que haviam criado com tanto empenho desfrutavam como Deuses de uma paz celestial, gozando as delícias de um paraíso de onde nunca haviam sido expulsos.



* Nietzsche, F. W. - Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Publicações Europa-América
Tradução da versão inglesa de Eduardo Saló (p.132)