23/09/2017

SINAIS DE LANTERNA

Treinou-se durante meses no código Morse através de sinais de luzes, até dominar aquela nova dactilografia com um só dedo. O polegar premia o botão da lanterna com a métrica do código sem que tivesse que pensar, a memória digitativa a antecipar-se a qualquer veleidade de improvisação. Noite fora, em frente ao espelho, enquanto uma específica janela emitia luz e a expectativa de vida. De vez em quando lembrava-se dos versos dos Mão Morta «Depois apagava-se/A última luz da última janela e desaparecia/O Amor na tépidez dos lençóis» e prosseguia a sua aprendizagem.

Ele era um ser da noite, do escuro, de canções negras, do lado da solidão da espécie. Aquela clarão de vida quando todos os outros dormem o sinal que de que do outro lado do quarteirão vivia um ser como ele, um apreciador de todos os jogos de sombra que se desenvolvem na penumbra, em que as fantasias se tornam reais e aquilo a que chamam realidade se esvai com o ocaso da luz natural. Podia ser um ou uma infeliz que sofresse de insónias crónicas ou alguém com medo da escuridão, uma alguém supersticioso. Enquanto não tentasse estabelecer comunicação nunca saberia o motivo daquela luz se encontrar acesa toda a noite. Jamais seria capaz de bater à porta do apartamento e perguntar directamente. 

Mesmo que toda aquela fantasia não resultasse em nada estava a adquirir uma nova competência cujo processo de aprendizagem lhe exercitava o cérebro. Podia ter começado por aprender a codificar um simples «boa noite» e por uma dessas coincidências que só são possíveis de antever na imaginação de um solitário noctívago, obtivesse uma resposta, então treinaria o resto do alfabeto. Por teimosia ou por hesitação em colocar à prova a sua imaginação demorou-se em dominar a lanterna e o código, adiando o dia em que se colocaria na janela da cozinha a fazer os sinais de lanterna. 

Como vivia de noite, aquilo que de dia seria considerada uma ideia rebuscada, assumia contornos de plausibilidade que nunca era colocada em causa. Na impossibilidade de se mudar para uma região calma e tranquila, trocara o ritmo de vida e estava acordado quando quase todos os outros dormiam e a dormir durante o dia, sem dar conta da carnificina diurna. Era para ele uma ideia lógica que alguém fosse aprender Morse para lhe responder, mas o impossível não existe no campo das probabilidades e a mais pequena expectativa de encontrar uma alma gémea e com ela comunicar desta forma, motivo suficiente para lhe dar curso.


(...a narrativa passa por o outro lado... se o(a) noctívago der conta do sinais de lanterna)

19/09/2017

O PASSAGEIRO FORA DO HORÁRIO


— O Sr. vem do trabalho?
— Sim.
— Lamento informá-lo, mas não pode viajar neste horário.
— Como assim? O que é que tem o horário?
— Neste horário, da uma à seis e meia da manhã, só podem viajar passageiros noctívagos que se andam a divertir. O Sr. não pode vir para aqui, com esse ar fatigado, incomodar os passageiros que andam a descontrair-se. Terá que sair no próxima paragem e esperar pelo primeiro transporte diurno, em que pode confortavelmente viajar, pois como trabalhador tem preferência nos lugares sentados.
— Mas eu trabalho de noite por turnos, acabei de sair da fábrica.
— Pois, mas o horário nocturno só é permitido para passageiros não trabalhadores. É por isso que nos horários diurnos a prioridade é absoluta para a classe trabalhadora. Exceptuam-se os casos de gravidez, de deficiência motora e de acompanhantes de crianças de colo, que continuam a ter a máxima prioridade, se se deslocarem para actividades consideradas de utilidade, senão, também têm que utilizar o horário da noite. Só não vou participar este ilícito porque não vai aqui mais nenhum passageiro. O Sr. arriscou-se muito, porque alguém vindo de uma noitada podia perfeitamente verificar o seu ar de regresso do trabalho e apresentar queixa. Aí estaríamos ambos metidos numa alhada, por Violação do Regulamento do Transporte Público. Eu perdia o emprego e o Sr. ficaria inibido durante um ano, pelo menos, da utilização deste serviço. Também se deve ao facto do Sr. não ser um desses casos em que é notório que vem do trabalho. Isso, só um funcionário como eu com muitos anos pode determinar com toda a segurança. Se fosse evidente teria que elaborar o modelo 423.
— O modelo quê?
— Quatrocentos e Vinte e Três, que se destina àqueles que vêm do trabalho com uma aparência de quem vêm da noite, prejudicando estes últimos…
— Mas aqui não vai mais ninguém!
— Agora, nada me garante que na próxima paragem não aparece alguém embriagado e conflituoso que dá conta. Este trabalho é muito cobiçado, não sabe o número de queixas anónimas que os serviços recebem a denunciar situações de desconformidade, tudo para atingir os Revisores, na expectativa de que possam abrir vagas para esta função. Por isso não nos podemos dar ao luxo de ser tolerantes, em termos práticos a sua situação é a mesma dos que não são portadores de títulos de transporte válido.

18/09/2017

O ESPANTALHO




Como é que conseguem ver os morangos de noite? — perguntava o primo do António « Alfaiate», rapaz da cidade a passar umas férias na aldeia de Serapicos.

De noite, os morangos ou qualquer outra fruta são todos bons! — responde-lhe o Carlos «Madrasta», que se preparava para liderar uma surtida aos morangal do «Malhão» da Fábrica, com a autoridade que lhe conferia fazê-lo desde que o Joaquim «Roscas» se tinha deixado disso por via de uma paixão que ainda durava por uma pequena da Póvoa dos Mosquitos, mais por teimosia por ela nada querer com ele, do que pelo resto. Aquele rapazinho da cidade ignorava que a principal motivação destas incursões se devia mais ao tédio de uma aldeia com um café e uma máquina de jogos que tivera sempre o mesmo jogo, morta para a sua função desde que toda a gente que poderia encontrar alívio nela se fartara e passara a constituir mais um motivo de tédio. A energia da juventude não se esgotava nos bailes enfadonhos na Associação Recreativa e Cultural de Serapicos, com os pais todos a assistirem, música popularucha, cerveja quase sempre quente e vinho corrente a copo.


A necessidade da juventude se divertir era compreendida pelos mais velhos e não se importavam muito com os assaltos, desde que não estragassem as outras culturas e não se alargassem no consumo. Normalmente eram árvores com muitos frutos as escolhidas e embora esse trabalho de identificação dos alvos fosse feito por todos era sempre Carlos «Madrasta» que fazia uma visita e decidia se era uma árvore escolhida. Embora existisse esse acordo tácito nunca admitido por nenhuma das partes, convinha analisar as circunstâncias humanas das redondezas, planos de fuga para o caso de algum proprietário mal disposto. Nesse aspecto o morangal era perfeito, pois desde que não fizessem barulho não eram detectados da mansão do falecido industrial, o único, de resto, que os correria a chumbo se fosse vivo, como tinha acontecido em tempos mais gloriosos desta tradição. O primo do «Alfaiate» fora bem advertido para a sua conduta, pois a história combinada era a de que o velho industrial ainda era vivo e capaz das maiores atrocidades a quem lhe invadisse o morangal.


Tal como esperado, enquanto meia dúzia de adolescentes se espalhava no terreno e colhia frutos maduros, facilmente discerníveis pela luminosidade proporcionada pelo luar, com o rapaz da cidade em frente. Terminava num cordão de videiras, com duas fiadas de arame e nele figuravam dois espantalhos a meio, para assustar os pássaros sem muita convicção, pois estes davam-se ao desplantes de os usar para se alaparem a escolher a altura de se banquetearem com os morangos mais maduros. O rapaz da cidade, entusiasmado por tão farta oferta de suculentos e doces frutos, como nunca havia provado na vida, afadigava-se a colher quantos podia para uma sacola enquanto mantinha a boca ocupada a mastigar ininterruptamente aquela iguaria. Num desses movimentos de colocar os frutos na sacola a tiracolo deu de caras com o espantalho. Sugestionado pela história que lhe havia sido contada sobre o feroz proprietário que para ele ainda era vivo, largou a correr pelo morangal só terminando aquela corrida quando o arame esticado do cordão de videiras o devolveu à realidade da física, com o pescoço marcado. A reacção inopinada rapaz da cidade e o modo como fora sustido motivo para abandonarem o local desabridamente, cada um para seu lado, tomados dum pânico inexplicável e contagioso. Nesta altura o rapaz da cidade ficou tão só quanto todos os outros e o seu comportamento foi espontâneo, subliminar, tendo fugido como todos os outros. A circunstância de não existirem por ali poços sem guarnição uma feliz coincidência.


O ponto de reencontro destas incursões era em frente ao café, por esta altura já fechado, num fontanário público a que chamavam a Bomba, com todo o propósito, pois era necessário bombear a água do poço rodando o manípulo que fazia girar uma roda de ferro e um embolo que extraia a água. A risota era farta à custa do rapaz da cidade por lhes afiançar que era o velho industrial em pessoa que estava mais à frente. e por isso tinha fugido daquela maneira desabrida. Desfeito o equívoco entre a aparição e o espantalho, embora embaraçado por isso, o rapaz da cidade sentia que embora se rissem dele também lhe estavam a agradecer a noite que lhes proporcionara, muito mais divertida do que se tivessem ido apenas debicar uns morangos ao luar. Ademais, era mais uma história que passaria a figurar entre as histórias que se transmitiam de geração para geração. Pelo menos enquanto durasse o efeito pasmaceira que motivava a perpetuar aquela tradição de comer da melhor fruta das redondezas, pois tinha sempre o sabor do risco.

25/07/2017

UMAS FÉRIAS DE SONHO

– Tive umas férias de sonho.
– A sério?
– Nem queiras saber, fui para uma estância paradisíaca. Aquilo é de cortar a respiração.
– Ai é? Mas quando é que foi isso?
– Em Agosto, não posso gozar noutra altura, por causa do maldito regulamento.
– Eu vi-te aqui a trabalhar em Agosto durante todo o mês. Foste ao fim de semana?
– Claro que não, um fim de semana não dá nem para a gente se instalar, quanto mais gozar férias. Estive aqui porque tinha serviço atrasado e não me apetecia fazê-lo, por isso contrariei-me e está pronto quando vim do gozo das merecidas férias.
– Então como é que te divertiste tanto, se não saíste daqui? Isso é alguma novidade de realidade virtual?
– Nada disso, onde é vais buscar essa fantasia toda? Roguei o Anacleto Sacras para as gozar por mim enquanto fiquei aqui a pôr tudo em ordem. É um «bon vivant» e sei que nunca me meteria em apuros. Posso até afirmar que ele gozou à grande por mim e por ele. Sabes como ele é, alguém que se diverte com qualquer coisa, até com aquele pacote turístico horroroso que tinha comprado em promoção. Ele é um sacana que tira proveito de todas as situações. Não exigiu mais nada do que o contratualizado com a agência.
– Mas, se não estavas lá como é que podes ter-te divertido?
– Sujeitou-se por mim ao longo e fatigante voo de ida e regresso e tirou aquelas fotos todas que publicou no meu Fakebook. Toda a gente assumiu que eu estivesse lá, mas não estava. Estava no meu sossego, sem alterar a minha dieta nem me confrontar com as excentricidades de países estranhos, enquanto alguns me davam os parabéns cheios de despeito por todo aquele gozo que ostentava nas fotos de praias e montanhas, pores de sol e outros artifícios usados para cativar turistas incautos. Não me podia ter divertido mais ao evitar todos os transtornos e incómodos de viajar. Para os outros eu estive lá, não estando. Quem lá esteve por mim divertiu-se mais do que eu me divertiria, dando a entender que fui eu que me diverti.
– Fantástico! Como é conseguis-te que ele te fizesse isso?
– Pedi-lhe. É isso que faz, goza as férias, faltas e licenças às pessoas. Ainda não tem licença para poder gozar a reforma, por causa da papelada toda que é precisa e da lentidão dos serviços. Porquê? Precisas de alguma coisa dele? Eu tenho o contacto dele.
– Tinha a esperança que ele me pudesse cumprir dois meses de prisão efectiva que apanhei, é a terceira vez que sou apanhado sem carta e agora como não tenho dinheiro para a multa, tenho que ir dentro, aos fins de semana, que é a altura de que mais gosto e em que posso descansar. Ainda pedi ao advogado para fazer um requerimento ao juiz para cumprir a pena durante a semana, em horário laboral.
– E o Juiz?
– Não aceitou, considerando que aquele regime não era o mais adequado para o caso. Eu já faço isso voluntariamente todos os dias, por isso não sentiria a punição, que era isso que poderia querer evitar. Se, ao menos se pudesse pescar na prisão, nem que fosse aos fins de semana, não me importava de ir, sempre seria um entretém, mas sem as canas fica difícil, senão impossível, suportar um fim de semana encarcerdo. Talvez o teu amigo me pudesse ajudar?
– Indo à pesca?
– Não!!! Eu referia-me à possibilidade dele me substituir na cadeia. Mesmo sendo tão dotado, dificilmente conseguiria pescar tão bem quanto eu e portanto daí não me adviria vantagem nenhuma. Se bem percebo, esse tal de Anacleto é capaz de encontrar divertimento nas situações mais exasperantes, talvez pudesse encontrar graça numa estadia gratuita no cárcere. Recompensa-lo-ia com a felicidade de continuar a ir à pesca.
– Concordo que é uma proposta arrojada e decerto Anacleto não desdenhará de analisar em toda a extensão e com a adequada atenção o desafio que comporta a tua proposta. Não é que duvide da sua extrema adaptabilidade para as situações mais extremas. É que há aspectos práticos a resolver para ser possível comprometer-se a cumprir o acordo. Seria preciso ludibriar as autoridades prisionais, alargando o horizonte da legalidade. Não da realidade, pois não seria uma incógnita troca de reclusos que prejudicaria alguém, mas as autoridades são inflexíveis em algumas questões legais. embora pudesse lucrar com doses de descontracção que Anacleto lhe proporcionaria  com a sua inestimável presença . De qualquer maneira o que há a fazer é ir falar com ele. Quanto é que tens que te apresentar?
– No próximo fim de semana, logo quando vai dar na televisão o Campeonato Mundial de Pesca à Pluma.

O DEUS DO TÉDIO

«... –, foi o próprio Deus que, no termo do seu trabalho, se deitou sob a forma de uma serpente debaixo da árvore do conhecimento: foi assim qe se recuperou de ser Deus... Fizera tudo demasiado belo... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus naquele sétimo dia...»*

Deus, confidenciando ao seu Anjo Construtor: – «Espera para veres as criaturas que vou inventar para a tua construção perfeita...!» – Antes ser de novo acometido por um bocejo que dura uma eternidade. A conceito do divertimento estava prestes a ser estreado com o a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. As caretas de crescente tensão do Anjo Construtor, que via o seu apaixonado e diligente esforço para proporcionar às Criaturas um paraíso ser impiedosamente destruído pela barbárie entre os homens e a restante Criação, carreava o seu ânimo celeste para uma insuportável perplexidade perante o comportamento da Divindade, que se distraia com tudo aquilo como se apreciasse a destruição e a morte. Como se o supremo divertimento pudesse consistir em assistir ao aniquilamento da única casa habitável que fora construída para as Criaturas, um condomínio de luxo do universo.


Deus só lhe tinha pedido para construir aquela e empenhara nela a maior parte da sua existência celestial. Talvez depois descansasse o suficiente para eventualmente lhe ordenar uma nova construção, mas desta vez opor-se-ia se não lhe garantissem outra raça mais inteligente para a desfrutar. Deus era capaz de fazer muito melhor do que aquilo no que tangia a Criaturas, mas enquanto durasse a farra do aniquilamento final que Lhe estava a proporcionar aquela divertimento inédito e rejuvenescedor, competia-lhe governar a sua angustia até que aquilo terminasse. Recorreria a uma qualquer emenda celestial para invocar o direito à greve se Deus insistisse naquele desporto destrutivo. Aquela Criação era o seu regalo, a ordem perfeita encarnada pela existência da Entidade Suprema da lógica e de todas as outras ciências que ainda não foram sequer inventadas. Apesar disso, tanta perfeição tinha acabado em tédio. 


Sendo Deus não poderia ser velho, dada a sua suposta intemporalidade, tinha-lhe explicado o Anjo Filósofo. Era mesmo assim e fora por ser assim que as criaturas de que se encarregara pessoalmente de criar procediam daquela maneira aufágica. O tédio causado por tanta perfeição uma equação imprevista. Ao ordenar a Criação já se poderia diagnosticar essa doença que corroía a Entidade Suprema, sem que qualquer um dos seus imensos poderes fosse eficaz para travar aquela misteriosa entropia. O responsável pela escatologia adiantara que os humanos nada poderiam fazer para impedir que essa doença que atingia o seu criador não lhes fosse transmitida, porque Ele a transmitira deliberadamente. O episódio da maçã um recurso de ultima hora para apressar a acção. 


Se os humanos não fossem recompensados pelo gene do tédio, poderiam bem usufruir na sua existência terrena com as maravilhas criadas pelo Anjo Construtor, numa felicidade apaziguada. Num cenário desses Deus receava que o tédio pudesse aniquilá-lo como Entidade, tornando-o mórbido ou depressivo. Nada poderia então fazer por si, nem por aquela multidão multifacetada de Anjos que o servia com total dedicação e para quem Ele significava a razão de viver. Não os poderia deixar no limbo da orfandade enquanto as criaturas que haviam criado com tanto empenho desfrutavam como Deuses de uma paz celestial, gozando as delícias de um paraíso de onde nunca haviam sido expulsos.



* Nietzsche, F. W. - Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Publicações Europa-América
Tradução da versão inglesa de Eduardo Saló (p.132)

23/07/2017

OS MEANDROS DA INTOLERÂNCIA

Anacleto Sacras tinha dirigido à edilidade um requerimento com o propósito de obter autorização para assar um porco no espeto na principal avenida, numa área pedonal que também destinam a espectáculos musicais e a exposições de escultores famosos que ninguém conhece. Tinha sido aquela a ideia que tinha conseguido encontrar para publicitar as histórias que inventava para se desenfadar da sua condição de funcionário cansado. As horas carreadas para o esforço em desenhar construções gramaticais para tornar credíveis as suas fantasias, incrementavam a sobrecarga a que o trabalho exigente na Repartição o submetia, tornando árida aquela terra onde poderiam crescer as maiores invenções e todos os devaneios. 

No limiar da subsistência como trovador, publica o magro resultado daquele jogo inglório em se esquecer das agruras da existência, num circulo virtual da sua confraria. Tem a candura de o fazer sem ser movido por interesse material, mas não ignora que procura algum reconhecimento para tão árdua tarefa, pese embora as limitações do tempo que dispõe na sua oficina mental para se demorar no devaneio causado pelas incongruências da realidade. As vicissitudes do existir. Não confia naquele contador de visitas que começa a contar quando pré-visualiza os textos antes mesmo de os publicar no seu perfil, sempre com os títulos mais apelativos que consegue engendrar, um truque que qualquer leitor de jornal bem conhece.

A sobrelotação de credulidade nascida como ervas daninhas na sua propensão humanitária distrai-o a ponto de se esquecer de que nem toda a gente é dada a pantominas. Alguns desses são aqueles que na Repartição exigem um ar sério e compenetrado, como se o uso da galhofa fosse um desrespeito legalmente punido com um olhar reprovador. É a ordem em que vivem no seu mundo arrumado em prateleiras com os rótulos em ordem, incapazes da poesia do inesperado, do gozo do imprevisto. Mesmo fartos dessas existências contidas, contentam-se em desancar em quem se manifesta de forma espontânea, com a capa de seriedade que só possui como substrato o vazio de qualquer vontade de mudança e o despeito por quem ousa colorir a sua vida com alguma fantasia. A respeitabilidade e a estreiteza de vistas conferem-lhe o poder de fazer sentir desconfortável a presença de quem se revolta sem violência contra as adversidades que a burocracia provoca aos expostos de longa duração como ele, que ainda não podia entrar na sala de espera da saída daquelas obrigações.

Fora um espécimen desses que tivera que aturar numa renhida, mas leal, troca de argumentos. Mas não conseguia conformar-se que aquele pedido de escusa tivesse cabimento naquele espaço, de natureza não institucional, de livre agremiação de pessoas com a mesma profissão, uma confraria de funcionários em modo informal, um espaço para a criatividade de cada um. Defendendo o direito do opinante a expressar a sua versão, nunca aquele apelo deve proceder e cada um deve seguir o seu caminho ignorando-se mutuamente. Tal escaramuça de argumentos fora retirada de circulação sem qualquer explicação aos visados, num acto de censura de alguém que se armou em cavaleiro andante sem se aperceber que caucionava a acção do «Troll». Embora constituísse uma afronta à liberdade de expressão, Anacleto pretendia apenas atenção para as suas fantasias, não popularidade para si, nem polémicas estéreis e cansativas. Para além de que os interesses gerais daquela agremiação estavam acima da sua humilde pessoa. Na resignação persistia um laivo de dúvida sobre a cobardia em que podia fundar-se o abster-se de voltar a publicar por ali. 

Sobretudo quando se processam na sombra de ministérios mais desconsiderações sobre a complexidade dos assuntos com que os funcionários são postos à prova numa luta diária contra o erro. Mas esse canal por onde escoava a sua produção literária em regime de voluntariado ficara-lhe vedado por causa da estreiteza de vistas de um frequentador. O contador de visitas do qual  desconfiava cada vez mais indicava-lhe como provável que a ligação para as suas intervenções na integra, que envolvem a abertura da sua página, registavam movimento inusitado. Não sabia se os visitantes não desistiam da condição de leitores e a abandonavam, mas se supostamente regressavam para novas visitas, isso fortalecia a legitima suposição de que por aquela via poderia angariar interessados nos seus esforços literários. Ainda aguardava a resposta formal do requerimento submetido, mas sabia que não ia receber nenhum parecer favorável, para bem da sua auto-estima em não poder concretizar tal evento, em cujo ridículo se inspirou para desvendar os meandros obscuros da intolerância.

21/07/2017

O HOMEM QUE QUERIA SER CONDENADO




A presente narrativa resulta da imaginação do autor, não sendo baseada em factos ou pessoas reais.







I - E ter uma cabeça grande [J.C.]



Jorge gostava de se sentar naquela mesa em particular, localizada junto ao amplo vidro que constituía a montra da pastelaria, quando ia tomar o pequeno-almoço. Se a mesa estava livre o dia apresentava-se radioso, mesmo que estivesse a chover, ou agoirento, mesmo que estivesse sol, se estivesse ocupada. Uma espécie de augúrio que ele levava demasiado a sério. A irritação de não se poder sentar nela, observando para além da transparência da montra o movimento das pessoas e dos automóveis, razão suficientemente forte para sentir prejudicado e um sinal inequívoco de que o dia ainda traria mais contrariedades e contratempos. 
Mesmo que os acontecimentos posteriores viessem a desmentir aquela crença, não conseguia livrar-se da convicção de que conspiravam contra ele, privando-o do único lugar onde o pão de água bem cozido com manteiga e o carioca de café lhe sabiam bem. As pessoas que ocupavam a mesa usurpadores sem vergonha de um direito que a si mesmo se concedera de tomar o pequeno-almoço ali, livre dos comentários sem interesse que a senhoria à hora das refeições insistia em relatar-lhe, apesar do seu evidente desinteresse. Normalmente sobre notícias que ouvia na televisão, que ligava logo que acordava. No dia anterior esquecera-se de lhe trazer o almoço porque estavam a transmitir o funeral, em directo, de um rapaz que se tinha suicidado, atirando-se dum viaduto por ordem de outro, num jogo muito em voga chamado “Baleia Azul”. 
Nos dias em que se tinha que apresentar na R.T.T. (Repartição dos Trabalhadores Temporários,) para onde tinha sido encaminhado depois de ter sido extinto o seu posto de trabalho e despedido, a Repartição fornecia-lhe uma senha de pequeno-almoço como aquelas que são facultadas aos dadores de sangue, por comparecer a horas e se colocar à disposição para realizar uma tarefa que lhe dessem: carregar os sacos de compras de alguém incapacitado, apanhar e separar lixo pela praias, fornecer refeições aos sem abrigo. De todos esses serviços que realizava sem pestanejar, sem angústia e sem entusiasmo, apreciava quando a tarefa era passear um cão pelos passadiços da praia. 
Deslocava-se de bicicleta para os locais onde era requerida a sua comparência. Fora-lhe fornecida pela Repartição, era lá que a deixava e ia buscar por não ter lugar para a guardar no minúsculo quarto que ocupava, cuja renda também era suportada pela RTT. Tinham colocado nas portagens máquinas que faziam o mesmo trabalho que ele, e não faziam reivindicações por melhorias de salário ou condições de trabalho, não se comoviam a ponto de perdoar a quem não tivesse dinheiro para pagar e não insistiam em ter férias quando o movimento era maior, no tempo da praia. O facto de ter sido substituído por uma máquina uma razão para se sentir uma vítima legítima do progresso e uma espécie que devia ser protegida, pois o seu caso era apenas um dos muitos que tinham ocorrido ao longo do tempo pela introdução das máquinas em funções que antes eram desempenhadas por humanos.
Enquanto esperava que o carioca ficasse morno e se inteirava do desinteresse geral dos demais, J. tentava encontrar uma resposta para isso. Invariavelmente não chegava a nenhuma conclusão. Desconfiava que isso tinha a ver personalidade apagada, com a modéstia e vulgaridade da roupa que envergava. As pessoas com quem convivia eram as que lhe apareciam nas suas tarefas temporárias. Não fosse a senhoria que lhe servia as refeições, teria dias em que não falava com ninguém. Passava os dias livres a vaguear, colhendo pedaço de madeira que encontrava, para alimentar a pequena salamandra que fornecia algum calor, logo desvanecido pelas frinchas de janelas e portas em mau estado. Era o seu seu ar sorumbático que dera azo a que lhe pusessem a alcunha de “Cabeçolas”. Isso, e ter uma cabeça grande.



II - A Carta Anónima



Àquela hora o creme da Nata já estava frio. O lugar a que Jorge se habituou a considerar seu está vago. É dali que olha para a rua, meio escondido por uma faixa quase transparente de publicidade à «Super Bock». Uma rapariga de lábios pintados de vermelho com uma camisola a dizer “eu amo Paris” passa, ao mesmo tempo que outra, com os braços peludos e com ar de quem faz uma pausa para o trabalho, entra na pastelaria. Hoje, contudo, ele tem a sua tranquilidade contaminada por aquilo que o Director da Repartição lhe disse, telegraficamente, naquele ar distante e pomposo, olhos de peixe por trás dos maciços óculos de acetato. 
“Sr. Jorge, é para o informar que faltam seis meses para terminar o seu estatuto de Trabalhador Temporário. A lei diz que deve ser formalmente advertido. Tem que assinar a folha que o funcionário lhe entregar, a confirmar que tomou conhecimento. Não o vou estar a maçar com outras considerações. Se vai ou não procurar um emprego, é consigo. Também não vejo muito onde possa procurar, com as suas qualificações. Certo é que daqui a seis meses acabam as senhas de refeição e o alojamento pago por esta Repartição e a partir daí este departamento deixará de ter a ficha activa. Bom dia. Passe na recepção para assinar a folha.”
Nada do que lhe fora dito era novidade. Estava consciente disso e todos os dias olhava para o calendário sem a mulher semidespida que lhe haviam oferecido numa oficina de automóveis, como consolo de uma tarde a carregar pneus para cima de um camião, de que faltava menos um dia para não ter quaisquer recursos para se alojar ou comer. Nunca ficaria na rua, pois existiam albergues e ele era suficientemente ordeiro para se adaptar às regras desses estabelecimentos. Estava inscrito na Oferta Nacional de Emprego. Nada mais podia fazer para encontrar uma ocupação remunerada, não era culpa dele ter sido substituído por uma máquina reluzente. Não iria morrer de fome, nem de frio, por isso encarava o futuro no horizonte de cada dia. Nunca tinha havido nenhuma queixa do seu desempenho nas variadas tarefas que tinham desempenhado, por isso tinha a consciência tranquila. Naquele momento o que podia fazer por si era saborear aquele pastel de nata que a empregada da pastelaria lhe oferecera. Já estava frio porque era do dia anterior, mas estava delicioso na mesma. Não tinha custado nada ter ajudado a trazer toda a loiça que estava em cima das mesas da esplanada, de uma horda de turistas franceses tinha que ali estado a tomar o pequeno-almoço. 
Apesar do seu estado de espírito não ser de angústia, também não se sentia completamente satisfeito com a sua existência, embora não soubesse com rigor invocar um argumento válido para a considerar miserável. Mais do isso ele sentia-se invisível. Um conjunto de átomos que não influenciavam qualquer rumo do planeta ou de qualquer pessoa. Dependia do Estado mas dele ninguém dependia, nem sequer um animal de companhia, como aquele gato preto e branco que costuma estar a apanhar sol à janela do prédio em frente, a observar tudo, a mexer as orelhas aos sons mais estridentes e repentinos, numa meditação de atenção plena perfeita. A sua pobreza e solidão não o tornavam interessante para ninguém, mas também o deixavam a coberto dos desígnios dos que se levantam animados pela ambição e que tinham urdido aquela teia que os escravizava através do trabalho, em ambientes tóxicos que conduzem às mais destruidoras doenças. Ele podia acompanhar o gato na sua vigília e aperceber-se do frenesim a que pessoas todas se tinham submetido a troco de bens materiais. Talvez desejasse um passe para ir ver o mar ou comer uma refeição numa daquelas esplanadas cheias de turistas, mas em contrapartida não tinha que viver daquela maneira frenética. 
A carta anónima fora uma ideia que lhe ocorrera quando a senhoria lhe servia uma aguada sopa de cebola e lhe relatou o mais recente escândalo de corrupção: um director de um ministério que tinha sido detido e estava a ser interrogado, durante o fim-de-semana, por um juiz já muito conhecido de outros casos, talvez por ser o único juiz daquele tribunal, pois estava sempre de serviço quando detinham pessoas importantes à sexta-feira. Uma carta anónima enviada às autoridades iniciara as investigações. Não resultavam destes processos mediáticos muitas condenações, pois os acusados podiam contratar bons advogados e usar todos os precedentes da lei para evitarem penas de prisão ou as adiarem. Ou a imprensa, sedenta por audiências, empolava o assunto de tal maneira, dando como certo que os visados tenham praticado os crimes, sem que os mesmos, tivessem sido julgados e condenados. Quase toda a gente acreditava que sim e que aqueles que eram acusados e condenados eram apenas uma pequena parte dos que delapidavam o património público em proveito próprio. 
Uma carta a denunciar-se de desvios que jamais conseguiria praticar, como aqueles de que falava a Senhoria, estavam fora do seu alcance. Denunciar-se como autor de crimes de sangue era igualmente pouco credível, pois ele até insectos tinha dificuldade em matar. Não conseguia ver na sua conduta qualquer possibilidade de se acusar de um crime que verdadeiramente tenha cometido, por forma a ser indiciado. Ainda lhe ocorreu a ideia de beber álcool, montar na bicicleta da Repartição e atropelar um polícia. A dificuldade desse plano residia na extrema dificuldade de encontrar um na rua que pudesse ser vítima de um atropelamento ou de uma tentativa. Os únicos que se podiam avistar estavam na entrada de supermercados. As ruas são incessantemente monitorizadas por câmara de vigilância colocadas em todas as esquinas, alegadamente para vigiar o trânsito, mas que podiam perfeitamente filmar outras ocorrências. O antigo patrulhamento a pé pela cidade, com o inevitável livro de contra-ordenações, tinha sido substituído por máquinas de filmar e por fiscais de parques, em uniformes azuis. Resistiam alguns arrumadores, curiosamente junto de cemitérios. A polícia era vista em viaturas, mas mostrava-se de metralhadora em locais públicos onde se espera grande afluência, como corridas de automóveis ou acrobacias de aviões.
Não tinha coragem para entrar num supermercado e atropelar um polícia ou alguém inocente, uma criança. Não podia prever como seria o seu equilíbrio em cima de uma bicicleta. Para além de tudo, custava-lhe perturbar o regular funcionamento de uma superfície comercial. 
Aquela ideia louca e repentina que lhe assomara e tomara a rédea do seu espírito prático, durante as garfadas do feijão-frade com atum, tinha evitado que continuasse a ouvir as mesmas ladainhas de sempre, acerca das notícias que se repetiam, os folhetins dos bancos a falirem e os folhetins de romance, ambos a ganharem reconhecimento internacional, dos quais ele não queria saber nada, pois nada podia fazer quanto a isso. Para pensar nesses assuntos há  gente muito bem remunerada, não tinha qualquer a obrigação de se preocupar. 
Nada de conclusivo saiu daquele pensamento impróprio que acometeu Jorge, que não era dado a fantasias nem a romances, a ponto de ficar incomodado com a ideia sem qualquer lógica de se fazer condenar. Se não conseguia encontrar emprego, como havia de se fazer condenar por um crime que era incapaz de cometer? Até ele sabia que se não existissem provas, não seria apenas a palavra dele a servir de prova. Teria que saber como tudo se passou, para não ser apanhado em contradições. Mas o que mais incomodava não era essa perspectiva, mas sim a ideia de querer que tal acontecesse. A tal ponto que nem saboreou a laranja já cortada em pedaços que a Senhoria lhe colocou para sobremesa. Tinha que ir descansar, não tinha sido convocado para nenhuma tarefa através de mensagem curta de texto para telefone móvel da Repartição. Estava sol, talvez o gato preto e branco o acompanhasse na sua reflexão sobre aquela alteração substancial do seu espírito despreocupado e o ajudasse a arrancar pela raiz ideias daninhas como aquelas, em vez de encarniçar o modesto intelecto com distracções de lunáticos. Uma boa sesta pode clarear muitas ideias dadas à luz de estômago vazio. Antes de adormecer pensou que teria que usar luvas para escrever a carta, para não deixar impressões digitais no papel, nem no envelope.

III - A Convocatória


Depois de matutar sobre a carta anónima e sem se demorar para já  com pormenores de natureza prática capazes de abortar prematuramente ideias geniais, como comprar um selo para a missiva não identificada que pretendia remeter, permanecia no ponto de partida. Não avançara nada de essencial na escolha de crime que o pudesse condenar a uma vida confortável nos calabouços. Se tivesse arte para se fazer condenar à pena máxima,  vinte e cinco anos, teria alimentação e alojamento garantidos por muito tempo. Poderia até ter um serviço leve de biblioteca, como já tinha visto um preso modelo num filme que vira nas sessões grátis da Praça, no último Verão. Empreendimento hercúleo que várias sessões de reflexão, com a cumplicidade circunspecta do gato preto e branco da janela vizinha, não tinham logrado resolver. Tinha concluído que a prisão era um local muito mais estável e seguro que o Albergue. 
Lá existem guardas armados e regras para cumprir. Talvez até tivesse canais que transmitissem desporto. O aparelho da Senhoria só sintonizava notícias e novelas. As notícias eram sempre desagradáveis e as telenovelas, um chorrilho de invenções para as quais não tinha paciência. Ao jantar a Senhoria quase que entornava a sopa na camisa nova, que lhe havia sido oferecida naquele mesmo dia na loja de roupa em segunda mão da esquina. Uma camisa um tanto garrida que suscitou um olhar de espanto. Como se já não bastassem ter ocorrido mais um atentado, um grupo de árabes que tinha saído à rua e desatado a esfaquear aleatoriamente quem lhe aparecia pela frente, sem nenhuma segregação de idade ou sexo das vítimas, o inquilino aparecia-lhe com uma camisola com uma cor tão viva que nem parecia ele.
Desde o onze de Setembro a actividade terrorista tinha sido gradualmente ocupada por indivíduos munidos de muita imaginação e espírito prático no cometimento de actos violentos usando tudo o que pudesse molestar a sociedade. A época em que se restringiam às bombas tinha acabado. A ampla cobertura dera ideias e motivação para agir a mais uns quantos desequilibrados, que assim ganhavam coragem para se aventurarem por conta própria, sem qualquer ideologia senão beneficiar de farta popularidade.
O que em várias tardes de sonolência controlada e afastamento de actividades úteis não tinham resolvido, resultou de uma sugestão proveniente das notícias que ele tanto detestava ouvir, recontadas pela Senhoria. A televisão não se encontrava ligada à hora das refeições por se encontrar na sala, que não era usada para esse efeito senão em ocasiões especiais que nunca ocorriam. Ele podia denunciar-se como sendo colaborador de uma dessas tenebrosas ajuntamentos secretos para a prática do terrorismo. Podia alertar para os preparativos de uma dessas acções sanguinárias que horrorizam a sociedade à hora da refeição, para além de poderem causar nódoas em camisas em segunda mão e vastas possibilidades de protagonismo aos autores e audiências à comunicação social. 
Apesar de ainda permanecer por solucionar o modo de obter os materiais imprescindíveis à prossecução daquele plano insano, apenas na aparência, como a esferográfica, papel de carta, envelope, luvas, a direcção completa para onde endereçar, tinha avançado substancialmente no seu plano, que sabia um ser um objectivo ambicioso, mas exequível. Seria mais fácil se não fosse um info-excluído,  mas fazê-lo daquela maneira um modo mais robusto e credível de se acusar. 
O seu plano era ficar de imediato em prisão preventiva, opondo-se a qualquer possibilidade da aplicação do  regime domiciliário, pois para além de não se tratar da sua casa e da mesma não ter telefone fixo, seria intolerável fechar fechado com a Senhoria vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Os dias seguintes adivinhavam-se de grandes afazeres e preparativos. Poderia usar as enormes luvas da Senhoria a pretexto de efectuar uma limpeza. O resto dos materiais e informações poderia obtêm-lhos na Repartição. O esforço final ficava reservado para a redacção da missiva propriamente dita, sem erros nem emendas. Tinha que ser legível para que a gravidade da denúncia fosse levada a sério.
No fim de tarde em que J. foi depositar a carta, nem a habitual insípida sopa de cebola lhe foi possível tomar. Aceitara o chá de cidreira que a Senhoria lhe ofereceu quando declinou a tigela, alegando estar maldisposto e recolheu-se para uma longa noite de insónia provocada pelo cansaço dos afazeres dos últimos dias e pela ansiedade provocada pela expectativa da sua detenção iminente, terreno fértil para o devaneio, replicada em cada uma das noites seguintes, que o transformaram num sonâmbulo durante os dias de espera.
Um dia ao entardecer finalmente dois polícias devidamente uniformizados, com pistola, radio de comunicações e algemas, estavam a falar com a Senhoria, à porta de casa. Susteve a respiração e esforçou-se por reduzir os batimentos do coração. Todavia os agentes de autoridade ausentaram-se sem o prenderem, sem sequer falarem com ele. Começou a colocar a possibilidade de estar a ser vítima de visões. Os dias naquela casa estavam a acabar e a Senhoria ao jantar nada referiu sobre a presença deles, o que ainda o deixou mais desconfiado da veracidade do que tinha avistado através da frincha da cortina às flores dos seus aposentos. A Senhoria jamais lhe ocultaria a visita das autoridades e muito menos o faria se a pessoa que procuravam fosse ele. 
Ela não gostava de polícias porque já tivera em tempo dissabores com eles e sofria ao recordar-se desses acontecimentos. Por isso omitiu a conversa informal com os dois agentes a J.. Afinal eles só lhe tinham perguntado se ele morava ali e dado um papel com uns letras de que ela não conseguia extrair qualquer significado. Compadecida do estado de saúde do visado, que se mostrava bastante combalido nos últimos dias, certamente pelo fim da tença que o Estado lhe dava, disse-lhe que ele não estava em casa por ter ido visitar familiares à província. Os agentes tinham-lhe deixado um papel, que deitou fora mais por instinto do que por premeditação, logo que entrou em casa. Aquela breve conversa com os agentes uniformizados à procura dum zé-ninguém como J., que já andava bastante apoquentado, deixara-a tonta e maldisposta, razão mais do suficiente para desencadear aquele lapso de memória de não entregar o papel que os agentes lhe haviam deixado para o seu inquilino.



IV - A Detenção



Aproximava-se o fim da vida subsidiada de J. quando de novo dois agentes vieram à bater à porta da Senhoria. Também estava a terminar a sesta a que se habituara a usufruir em vez de recolectar pedaços de madeira para se aquecer na salamandra, cujo calor era mais simbólico que efectivo, pois não ia precisar mais de recolher mobílias de aglomerado, de montagem rápida e curta duração. Raramente encontrava móveis de madeira maciça, cujos pedaços duravam e aqueciam mais do que aqueles pedaços cuja combustão se assemelhava à do papel.
Desta vez os agentes trajavam à civil e um deles era uma rapariga nova, de compleição para o enfezado. Só quando lhe viu a identificação é que acreditou que estava na presença de uma agente da polícia, cujas funções de investigação criminal permitiam que não usasse farda. Conforme explicaram prontamente à prestes a deixar de ser Senhoria, vinham buscar J. porque ele não comparecera nem na esquadra nem no Tribunal. Por isso tinha sido "ordenada a sua comparência sob custódia para ser presente a uma autoridade judiciária, a fim de ser inquirido" - palavreado técnico que a Senhoria não percebeu minimamente. Certo é que iria pernoitar na esquadra e de manhã iria ser conduzido ao Tribunal. 
J. desconfiava que este seria o desfecho provável da sua não comparência na data indicada que tinha sido depositada no Receptáculo, outro nome próprio para caixa do correio. A ideia de faltar fora instigada pela própria notificação, a qual expressamente advertia para essa possibilidade caso faltasse e até à data e hora da falta não comunicasse a sua impossibilidade. A J. ocorreu a impossibilidade de isso suceder se o convocado sofresse um qualquer acidente que o impossibilitasse de comunicar. Apesar da regra parecer estúpida era para cumprir, por isso ele não compareceria e aguentaria com as legais consequências. Além de que a sua culpabilidade aumentaria a partir do momento em que suspeitassem que se furtava ao contacto com as autoridades.

Ainda não passava da hora de jantar e por antevia uma refeição diferente, bem mais substancial e uma noite num dos locais mais seguros da cidade, a Esquadra de Polícia. Foi tratado com afabilidade, mas a noite mal dormida deveu-se mais a uma companheiro de cela com pesadelos, que havia sido detido por condução sob o efeito do álcool, mas que somara aos delitos algumas palavras e ameaças pouco simpáticas para aqueles agentes tão correctos e que ficara muito revoltado por ter que passar a noite sem beber, do que ao quase inexistente colchão. Para se entreter felizmente a cela possuía uma profusão de inscrições de anteriores locatários cuja eloquência deixou J. bastante elucidado acerca da amizade que tinham aos captores.
Estranhou não ter sido algemado, nem quando acompanhou os agentes à esquadra, nem quando foi transportado para o Tribunal. Lá, um rapaz novo, de barba, moreno e com uma camisa de surf, fez-lhe inúmeras perguntas sobre a sua vida. A sua atitude descontraída sugeria que não acreditava no carácter da denúncia que fora feita contra si, parecendo até que o divertia tudo aquilo. Ficou um pouco mais sério quando lhe falou que também tinha sido condenado a pagar uma multa por não ter comparecido. Parecia também saber do carácter incobrável daquela multa porque o visado não tinha quaisquer rendimentos, bens ou heranças que pudessem servir para garantir o seu pagamento. Era apenas burocracia e formalidade. 
Foi restituído à liberdade, não sem antes ser advertido com um ar mesmo sério por parte do funcionário, de que "se fosse preciso mais alguma coisa era notificado e se assim fosse que não faltasse." O local onde estivera a ser ouvido um sitio muito estranho, onde os funcionários se amontoavam, acotovelando-se uns aos outros e a pilhas de processos que há por todo o lado. Enquanto era inquirido a testemunha a quem faziam o mesmo ao lado ouvia tudo o que lhe era perguntado e notou-lhe um olhar de medo quando ouviu o Funcionário a ler-lhe o teor da carta anónima que o delatava de se preparar para o cometimento de crimes de terrorismo. Eram ambientes de trabalho muito tóxicas, em que as condições oferecidas aos Funcionários e depoentes eram pouco dignas. Sentia por eles toda a compaixão por assim terem de perseguir criminalmente os autores de todos os crimes que se cometiam.
Antes de abandonar a casa da Senhoria, J. ainda recebeu uma carta a notificá-lo do Arquivamento dos Autos, "por não se ter verificado qualquer indício da prática de qualquer crime" e por "ao sujeito denunciado nos presentes autos não poder ser imputada a prática dos factos de que vinha denunciado." Não tinham acreditado em nada, mas não levava a mal porque não havia efectivamente nada em que acreditar. J. sentia-se aliviado, mesmo sabendo que acabava ali o seu sonho prisional e que subiria um patamar da miséria ao recorrer ao Albergue. Ficou até surpreendido por ter acreditado que seria capaz de se fazer condenar. Mas era exactamente por isso que se sentia tão aliviado, como se nunca se sentira na sua vida.